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Jamil Chade

Obsessão de Bolsonaro pela soberania era mais uma de suas mentiras

20.mai.22 - Presidente Jair Bolsonaro (PL) encontra Elon Musk para discutir Amazônia - Divulgação/Redes sociais
20.mai.22 - Presidente Jair Bolsonaro (PL) encontra Elon Musk para discutir Amazônia Imagem: Divulgação/Redes sociais
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

20/05/2022 12h53

Quando Jair Bolsonaro abriu a Assembleia Geral da ONU pela primeira vez, em setembro de 2019, seu recado foi claro: o Brasil não aceitaria o questionamento sobre a soberania da Amazônia. E, com este argumento, qualquer cobrança sobre o desmatamento era uma ameaça estrangeira aos interesses nacionais.

Ao lado de militares que hoje se revelam capazes de estupros contra a democracia, o capitão repetia ainda frase por frase a narrativa de seu único grande aliado, Donald Trump, que insistia que o multilateralismo não era a resposta e que soberanias fortes precisariam vingar.

Seu então ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, era outro que não perdia a oportunidade de anunciar que o governo não aceitaria "relativizar a soberania sobre o seu território, qualquer que seja o pretexto e qualquer que seja a roupagem".

Ao longo de seus três anos no poder, Bolsonaro manipulou o termo para abandonar tratados internacionais, esconder crimes e legalizar invasões.

Mas esse mesmo conceito tão caro para o bolsonarismo parece ter sido relativizado quando, nesta sexta-feira, o Palácio do Planalto festejou um acordo com o bilionário Elon Musk para ajudar a "monitorar" a Amazônia.

Não restam dúvidas de que a região precisa ser alvo de monitoramento, inclusive para lidar com alguns dos grupos que hoje contam com a complacência de pessoas no poder para invadir terras.

Mas, de forma soberana, uma sociedade precisa saber detalhes de quanto esse acordo custou, se houve licitação e de como será tratado o banco de dados coletados pelo sistema.

A coluna apurou que a preparação da visita de Musk sequer passou pelo Itamaraty, uma instituição que sempre soube o que era a soberania. Não existem tampouco informações sobre o eventual abuso do sistema para monitorar grupos que questionem a violência do estado e nem quem estará no comando.

Do latim super omnia, o conceito de soberania ganhou diferentes componentes ao longo de séculos. Mas é sempre útil lembrar que Paul Virilio alertou que a soberania não residiria mais no território, e sim sobre seu controle.

Para a excitação de militares e seus viagras, a bandeira brasileira pode até continuar hasteada nos postos das Forças Armadas pela floresta. Mas ela não passará de uma ilusão enquanto não ficar esclarecido o que de fato Musk leva do Brasil, além de declarações de amor constrangedoras dos membros do governo e de uma medalha inexplicada dada pelo Ministério da Defesa.

O que está em jogo hoje não é apenas a capacidade de monitoramento da Amazônia. Mas o controle sobre os dados que tal sistema irá gerar e que estarão nas mãos de um magnata estrangeiro.