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Jamil Chade

Brasil critica politização e não apoia resolução na OMS condenando Rússia

Carros e prédio de hospital destruído por ataque aéreo em meio à invasão russa da Ucrânia, em Mariupol - Serviço de imprensa da Polícia Nacional da Ucrânia/via Reuters
Carros e prédio de hospital destruído por ataque aéreo em meio à invasão russa da Ucrânia, em Mariupol Imagem: Serviço de imprensa da Polícia Nacional da Ucrânia/via Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

26/05/2022 11h51

Com a abstenção do Brasil, a OMS (Organização Mundial da Saúde) aprovou nesta quinta-feira uma resolução condenando a Rússia pelos ataques contra instalações médicas e serviços de saúde na Ucrânia e criticando a invasão do país vizinho. O texto deixa uma brecha para que, no futuro, projetos de cooperação possam ser suspensos com Moscou, e até mesmo uma exclusão maior por parte do Kremlin.

A resolução foi aprovada com o apoio de 88 países. Doze governos votaram contra, entre eles Cuba, China, Síria, Rússia e Coreia do Norte. 53 países optaram pela abstenção, incluindo o Brasil, Arábia Saudita, ditaduras do Oriente Médio e e grande parte da África.

Chile, Argentina, México, Uruguai, Equador, Colômbia, Peru e Paraguai não seguiram a abstenção brasileira e deram apoio ao projeto. EUA, Europa, Japão e Canadá também votaram pela condenação.

Quando o resultado foi anunciado, delegações se levantaram para aplaudir o resultado, num ato raro dentro da ONU. Ainda assim, o esforço de isolamento da Rússia por parte das potências ocidentais vem perdendo força e, depois de três meses de conflito, muitas delegações consideram que o "cancelamento diplomático" pode ter um efeito de exacerbar a tensão. Se europeus e americanos conseguiram suspender a Rússia do Conselho de Direitos Humanos, de órgãos técnicos e cancelar projetos de cooperação, a opção na OMS não foi por uma ação mais radical.

O temor de Washington e Bruxelas é de que, com uma resolução mais dura, as potências não conseguissem votos suficientes para aprovar o documento. A escolha foi por uma resolução que se limita a condenar a Rússia e pedir que ataques contra profissionais de saúde e locais de atendimento cessem.

Num esforço de minar a pressão ocidental, o governo da Rússia propôs uma resolução alternativa. Nela, pedia que todos os lados do conflito respeitassem civis e que ataques contra hospitais fossem evitados. Americanos e europeus qualificaram a manobra de "cínica".

O projeto russo, que tinha o apoio da Síria, foi rejeitado. O Brasil, porém, manteve sua abstenção, ao lado de outros 69 países. 15 governos votaram ao lado dos russos países como Coreia do Norte, Burundi, China, Irã e Cuba. Mas 66 votos contrários impediram a aprovação do texto.

Explicação brasileira: ato politiza OMS e aumenta polarização.

O Brasil, que no início do conflito votou ao lado de americanos e europeus em resoluções condenando os russos, passou a adotar uma postura diferente em órgãos técnicos da ONU. Na avaliação do governo de Jair Bolsonaro, tal exclusão dificultaria o diálogo entre as partes no conflito e ameaçaria as próprias entidades internacionais.

Ao explicar seu voto nesta quinta-feira, a delegação do Itamaraty deixou claro que optou por não apoiar nenhuma das duas resoluções por considerar que elas politizam o debate, aprofundam a polarização e são desnecessárias.

Segundo o governo, a OMS tem um papel importante em locais de conflito e o Brasil reconhece os desafios de saúde na Ucrânia. Mas o Itamaraty deixa claro que considera que a agência já tem esse mandato e que não era necessário um documento específico para a Ucrânia. O governo também lembra que, em outros países em guerra, o mesmo gesto não foi realizado.

O Itamaraty ainda criticou a falta de transparência por parte dos autores das resoluções e ausência de um espaço de negociação. "Por isso não apoiamos nenhuma delas", declarou o Itamaraty.

Para europeus, porém, a posição brasileira beneficia Vladimir Putin, um dos poucos aliados internacionais de Bolsonaro.

O Brasil não foi o único a optar pela abstenção. Alguns dos países dos Brics, coimo a Índia e a África do Sul, também seguiram o mesmo padrão. Já a China, por exemplo, votou contra e alegou que a OMS não era o local adequado para tratar da questão de guerra e paz na Ucrânia.

Ao apresentar a resolução, a delegação da Ucrânia insistiu que russos têm cometido crimes e que, uma vez que um cessar-fogo tenha sido estabelecido, os serviços de saúde poderão voltar a ocorrer. Já o governo russo criticou os governos que apoiam a Ucrânia, alertando que deveriam estar "entregando remédios, e não armas". Para Moscou, existe um risco de uma politização da OMS.

O governo dos EUA também pediu para que a comunidade internacional aprovasse a resolução. "A agressão russa deslocou 8 milhões de pessoas e levou a 6,4 milhões de refugiados. Até semana passada, foram 226 ataques contra instalações médicas. 3 ataques por dia desde fevereiro. Nem maternidades foram poupadas", disse a delegação americana na OMS.