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Jamil Chade

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Mundo vive maior alta no custo de vida do século; ameaça é de caos político

Família em situação de pobreza no Brasil; conclusões de estudos feitos na Holanda e em outros períodos de fome podem se aplicar ao contexto atual - GETTY IMAGES
Família em situação de pobreza no Brasil; conclusões de estudos feitos na Holanda e em outros períodos de fome podem se aplicar ao contexto atual Imagem: GETTY IMAGES
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

08/06/2022 13h15

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A ONU estima que, depois de dois anos de pandemia, a guerra na Ucrânia está causando o maior aumento no custo de vida em uma geração, ampliando o risco de conflitos civis e protestos sociais. O alerta está sendo publicado nesta quarta-feira, apontando que a inflação nos preços de alimentos e de energia pode levar bilhões de pessoas a uma situação crítica.

Segundo o levantamento, a crise tem duas facetas. A primeira é o desabamento da receita das famílias e governos. Hoje, 60% dos trabalhadores contam com uma renda mais baixa que tinham antes da pandemia. 60% dos países pobres vivem uma dívida impagável e as economias emergentes somam um buraco de mais de US$ 1,2 trilhão para conseguir atender às demandas sociais.

Do outro lado está a explosão dos preços. De acordo com a ONU, o índice de preços de alimentos da FAO está em níveis quase recorde e 20,8% maior do que nesta época do ano passado. Com US$ 120 por barril, os preços da energia em geral devem subir 50% em 2022 em relação a 2021. O preço do gás natural europeu em particular aumentou dez vezes em relação a 2020.

Quase 90 milhões de pessoas na Ásia e na África que antes tinham acesso à eletricidade, não podem mais pagar por suas necessidades energéticas básicas. No mundo, entre 2019 e 2021, 30 milhões de pessoas perderam o acesso ao combustível de cozinha limpa e o número global agora é de 2,4 bilhões que não têm acesso.

Já os preços dos fertilizantes são mais que o dobro da média entre 2000 e 2020, gerando o temor de que a crise se prolongue em 2023.

"Se os altos preços dos fertilizantes persistirem na próxima estação de plantio, a atual crise do trigo e dos óleos vegetais poderá se estender a uma crise do arroz, afetando bilhões de pessoas a mais nas Américas e na Ásia", disse.

Enquanto isso, cerca de 4,1 bilhões de pessoas carecem de proteção social e o crescimento do PIB mundial caiu de 3,6% a 2,6%.

"Essa catástrofe já está sendo construída há anos, mas desde a guerra ela se tornou insuportável para muitos países", disse. "Em 2022, entre 179 e 181 milhões de pessoas estão previstas a enfrentar uma crise alimentar ou piores condições. Espera-se que mais 19 milhões de pessoas enfrentem a subnutrição crônica no mundo em 2023", indica.

Maior aumento da fome

Desde 2019, o número de pessoas que enfrentam pobreza extrema e insegurança alimentar aguda aumentou em 77 milhões e 193 milhões, respectivamente. "O aumento da fome desde o início da guerra pode, de fato, ser maior e mais difundido", alerta a ONU.

A entidade estima que, em apenas dois anos, o número de pessoas com grave insegurança alimentar dobrou de 135 milhões de pessoas pré-pandêmicas para 276 milhões no início de 2022. Espera-se que os efeitos da guerra na Ucrânia elevem este número para 323 milhões em 2022.

No caso da América Latina, a região deve registrar um aumento de importação de alimentos de 28% em valores, o maior entre todos os continentes.

Outro problema é a restrição ao comércio, imposto por vários exportadores de alimentos. Segundo a ONU, a escala das restrições atuais já ultrapassou o cenário experimentado durante a crise de preços de alimentos em 2007/08, afetando 17,3% do total de calorias comercializadas globalmente e agravando ainda mais a fome.

Há 15 anos, as restrições à exportação durante a crise de preços de alimentos contribuíram para 40% do aumento dos preços agrícolas durante o período. Desde 24 de fevereiro de 2022, 109 medidas restritivas à exportação foram implementadas. Entre elas está a proibição da exportação de fertilizantes e certos produtos alimentícios, tomadas por 63 países.

Enquanto isso, os custos de transporte marítimo são mais do triplo da média pré-pandêmica, devido aos efeitos da crise da covid-19 e à destruição da infraestrutura de transporte na Ucrânia.


Ciclo perverso e instabilidade política

De acordo com a ONU, há um ciclo perverso. Os preços mais altos da energia, especialmente do diesel e do gás natural, aumentam os custos de fertilizantes e transporte. Ambos os fatores, por sua vez, aumentam os custos de produção de alimentos.

A consequência é a redução do rendimento agrícola e a preços ainda mais altos dos alimentos na próxima estação.

"Estes, por sua vez, aumentam a inflação, contribuindo para o que já estava aumentando as pressões das taxas de juros e apertando as condições financeiras. Condições financeiras mais apertadas corroem o poder de compra das moedas em desenvolvimento", alerta a ONU.

O temor da entidade é que de esses ciclos viciosos criados por uma crise de custo de vida também podem desencadear instabilidade social e política. "Uma inflação mais alta significa preços mais altos de alimentos e energia, e um custo de vida mais alto. Isto, por sua vez, reduz a renda real das famílias e, com isso, seu padrão de vida e suas oportunidades para um futuro melhor", alerta.

Num total, a entidade estima que 1,7 bilhão de pessoas vivem em países severamente expostos a pelo menos um dos três canais de transmissão da crise, ou seja, o aumento dos preços dos alimentos, o aumento dos preços da energia e o aperto das finanças. "O mais preocupante é que 1,2 bilhões de pessoas vivem em países expostos a uma "tempestade perfeita" de todas as três vertentes ao mesmo tempo", indica a ONU.