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Jamil Chade

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Diz quem fica

© Sebastião SALGADO/Sebastião Salgado/Divulgação
Imagem: © Sebastião SALGADO/Sebastião Salgado/Divulgação
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

16/06/2022 18h20

Há poucos meses, recebi uma mensagem simpática de Dom. Ele me desejava sucesso em meu novo livro. Era uma mensagem gratuita. Sem intenções para além de uma generosidade genuína.

Nesta semana, quando as notícias de seu assassinato ao lado do indigenista Bruno Pereira foram confirmadas, senti escorrer pelo meu rosto o gosto salgado da indignação, como se nossos sonhos também tivessem sido brutalmente esquartejados.

Ainda tentava me restabelecer para escrever uma primeira matéria sobre a reação internacional quando recebi, por acaso, um vídeo de um amigo. Por uma filmagem capenga de um celular, via-se um senhor frágil sentado no centro de um teatro. E sua voz de despedida para sempre dos palcos que apenas ampliou meu desespero.

Era Milton Nascimento, em um dos shows de encerramento de sua carreira.

"Mande notícias do mundo de lá", cantava ele. "Diz quem fica", emendava. "Me dê um abraço, venha me apertar. Tô chegando".

Aquela melodia se transformava involuntariamente em uma trilha sonora da tormenta de ver um país que da adeus - de novo - ao seu futuro.

O que será deixado em seu lugar? Diz quem fica.

Quanto tempo levaremos para reconstruir um país? Ou começar a construí-lo, de fato?

Mas, e se não houver o voto, como responderemos aos crimes políticos? Eles já nos mostraram que têm plano, meta e até um viking brasileiro. E nós? Como iremos resistir quando tentarem fechar a cortina?

Num país que chora e sangra, quantos enterraremos ainda junto com o sonho da democracia?

Diz quem fica.