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Putin redireciona Rússia aos Brics e quer moeda; Bolsonaro não cita guerra

Os presidentes do Brasil, Jair Bolsonaro, e da Rússia, Vladimir Putin, posam para foto após encontro no Kremlin - Mikhail Klimentyev / Sputnik / AFP
Os presidentes do Brasil, Jair Bolsonaro, e da Rússia, Vladimir Putin, posam para foto após encontro no Kremlin Imagem: Mikhail Klimentyev / Sputnik / AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

22/06/2022 09h53

Sem fazer referências à guerra na Ucrânia e sem citar sequer a invasão russa, o presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta quarta-feira em um evento do Brics que o país está preocupado com o "contexto internacional" e seu impacto sobre os fluxos de comércio, abastecimento e investimentos.

O brasileiro, porém, manteve seu malabarismo diplomático e também evitou criticar os países ocidentais, alvo de questionamentos e ataques por parte da China e Rússia. O discurso ocorreu no Business Fórum do Brics, por meio de um vídeo pré-gravado. O evento serve de preparação para a cúpula do grupo, agendada para quinta-feira.

Mas foi a participação de Vladimir Putin pela primeira vez desde o início da guerra na Ucrânia em um encontro internacional de peso que gerou ampla repercussão.

Durante o evento preparatório, o russo anunciou que seu país está redirecionando as relações comerciais e investimentos aos países do bloco de economias emergentes, diante das sanções impostas por americanos e europeus. Além disso, falou na criação de sistemas financeiros alternativos e retomou a ideia da criação de uma moeda comum para permitir o fluxo de bens entre as economias do grupo.

Xi e Putin criticam Ocidente e propõem maior aliança entre emergentes

Se Bolsonaro evitou transformar sua participação em um ataque contra EUA e Europa, o presidente da China, Xi Jinping, como anfitrião, pediu que haja um esforço para buscar a paz. Mas, conforme o UOL antecipou na terça-feira, não houve um acordo entre os cinco países do bloco para emitir uma declaração de apoio a Putin.

Xi, ainda assim, mandou recados para as potências ocidentais. "A história mostra que a hegemonia, grupos políticos e confrontação de blocos não trazem nem paz e nem estabilidade. Mas guerra e conflito", disse.

Aliado declarado de Putin, o chinês criticou abertamente as potências ocidentais. "A crise ucraniana soou o alerta para a humanidade", disse. "Países vão certamente ter problemas de segurança se colocarem uma fé cega em suas posições de força e expandir alianças militares. E buscar sua segurança às custas de outros", afirmou o chinês, numa referência à ampliação da Otan ao Leste Europeu.

Ao discursar, Putin também direcionou suas críticas ao Ocidente. "Ao mesmo tempo em que mais e mais sanções de motivação política são continuamente introduzidas, os mecanismos de pressão sobre os concorrentes são ainda mais reforçados", alertou.

"Há uma destruição intencional dos laços de cooperação; as cadeias de transporte e logística são destruídas. E tudo isso é contrário ao bom senso e à lógica econômica básica, mina os interesses comerciais em escala global, afetando negativamente o bem-estar das pessoas, de fato, de todos os países", disse, sem fazer referência ao fato de que essa é a resposta de europeus e americanos diante da invasão russa ao território da Ucrânia.

Putin, porém, insiste que o resultado disso é um cenário no qual "os problemas na economia mundial se tornam recorrentes".

"O que vemos é um abrandamento econômico, desemprego crescente, escassez de matérias-primas e componentes. Os problemas para garantir a segurança alimentar global estão se agravando; os preços dos grãos e outros produtos agrícolas básicos estão sendo inflados", disse, também sem fazer referência ao bloqueio dos portos ucranianos por forças russas.

Putin anuncia redirecionamento de sua economia com Brics e fala até de moeda

Para Putin, diante do cenário, o bloco dos emergentes precisa se unir. "Estamos ativamente engajados em redirecionar nossos fluxos comerciais e contatos econômicos estrangeiros para parceiros internacionais confiáveis, antes de tudo, com os países do Brics", disse.

"É importante que, apesar de todos os problemas e dificuldades, os círculos comerciais dos Brics estejam constantemente reforçando os laços mutuamente benéficos nas áreas de comércio, finanças e investimentos", disse.

Segundo ele, nos primeiros três meses deste ano, o comércio entre a Rússia e os países dos Brics aumentou em 38%, atingindo 45 bilhões de dólares.

Putin também usou seu discurso para indicar um redirecionamento de sua economia. "Os contatos entre os círculos empresariais russos e a comunidade empresarial dos países dos Brics se intensificaram", disse.

Segundo ele, estão em andamento negociações para abrir cadeias de lojas indianas na Rússia, aumentar a participação de automóveis, equipamentos e ferragens chineses em nosso mercado. "Por sua vez, a presença da Rússia nos países dos Brics está crescendo. Tem havido um aumento notável nas exportações de petróleo russo para a China e Índia", disse.

Ele ainda citou a situação com o Brasil. "A cooperação agrícola está se desenvolvendo de forma dinâmica. A Rússia exporta quantidades consideráveis de fertilizantes para os países dos Brics. As empresas russas de TI estão expandindo suas atividades na Índia e na África do Sul, e nossos satélites permitem a transmissão de TV para cerca de 40 milhões de residentes no Brasil", disse.

Putin também destacou como, diante das sanções financeiras, novos mecanismos alternativos estão sendo criados com os emergentes. "Estamos explorando a possibilidade de criar uma moeda de reserva internacional com base na cesta de moedas dos Brics", disse.

Segundo ele, a comunidade empresarial russa, em coordenação com as comunidades empresariais dos países emergentes, está tomando medidas para desenvolver novas rotas logísticas e novas cadeias de produção.

"Estamos prontos para trabalhar abertamente com todos os parceiros de boa fé com base nos princípios de respeito mútuo pelos interesses uns dos outros, o primado do direito internacional e a igualdade para todas as nações e povos", disse.

Em geral, gostaria de observar que a Rússia está tomando medidas abrangentes destinadas a mitigar o impacto negativo das sanções e a fortalecer nossas relações comerciais e de investimento com todos os Estados envolvidos. Nossa política macroeconômica mostra sua eficácia na prática. Conseguimos proteger o sistema financeiro russo e começamos a estabilizar a situação no setor, fornecendo apoio social direcionado aos cidadãos.

Bolsonaro: "contexto" preocupa

Já Bolsonaro optou por evitar os temas políticos e se encontrar em sua mensagem econômica. "O atual contexto internacional é motivo de preocupação em razão dos riscos aos fluxos de comércio e investimentos e a estabilidade das cadeias de abastecimento de energia e alimentos", disse.

Ao usar esses termos, o Brasil evitou criticar a Rússia pela guerra e ainda não abriu uma frente contra americanos e europeus, autores das sanções.

"A resposta do Brasil a esses desafios não é de se fechar ao resto do mundo. Pelo contrário. Temos procurado aprofundar nossa integração econômica", afirmou. Segundo ele, é uma "satisfação" compartilhar o mesmo espírito de cooperação com o restante dos membros do bloco.

Bolsonaro ainda focou seu discurso nos aspectos positivos de uma aproximação entre empresários dos países do Brics e insistiu que seu objetivo é "melhorar a inserção do Brasil nos fluxos internacionais de comércio e investimento".

Ele também usou a participação para vender sua agenda econômica, indicando que tomou medidas para tornar o marco regulatório mais seguro e transparente. Bolsonaro ainda citou medidas de liberdade econômica e reforma da Previdência. "Uma das metas de governo tem sido ampliar a participação do setor privado na economia, promover investimentos em infraestrutura", disse.

Bolsonaro também destacou o Banco do Brics como um instrumento para "contribuir para o crescimento de nossas economias" e aposta que a abertura do escritório da instituição no Brasil permitirá sua ampliação de atuação no País.

Ao explicar aos empresários que o Brasil quer se consolidar como "polo seguro e estável para investimentos", Bolsonaro indicou que o "processo de ingresso na OCDE vai ser mais um passo neste sentido". Segundo ele, o Brasil quer participar de forma construtiva na definição dos rumos da economia global.