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Jamil Chade

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Lava Jato: Primeiro banqueiro suíço é condenado por lavagem de dinheiro

Fachada da sede da Odebrecht -  Kevin David/A7 Press/Estadão Conteúdo
Fachada da sede da Odebrecht Imagem: Kevin David/A7 Press/Estadão Conteúdo
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

23/06/2022 07h53

Pela primeira vez desde o início da Operação Lava Jato, um banqueiro suíço foi condenado por sua atuação no esquema de corrupção que envolveu o Brasil e o país europeu.

O Ministério Público Federal da Suíça condenou um ex-dirigente PKB Privatbank por lavagem de dinheiro. Ferdinando Coda Nunziante permitiu, segundo as autoridades, a lavagem de US$ 17,5 milhões (cerca de R$ 90,6 milhões na cotação atual). Ele foi condenado, porém, a pagar 270 mil francos suíços (R$ 1,45 milhão) e, ainda assim, ele não terá de desembolsar o valor, salvo se cometer uma nova irregularidade nos próximos dois anos. Pelo sistema suíço, a procuradoria pode também conduzir processos e tomar decisões, sem que o caso passe por tribunais.

Mesmo assim, a decisão representa uma rara condenação a um banqueiro suíço e foi revelada nesta quinta-feira pelo jornalista Federico Franchini, da publicação Gotham. A condenação de 23 de maio foi confirmada pela reportagem do UOL. Procurado, o banco ainda não se pronunciou.

Depois de investigar quem recebeu e quem pagou por propinas ao longo de anos, envolvendo a Petrobras e a Odebrecht, os procuradores suíços abriram uma terceira fase do processo. A meta era a de avaliar como os bancos locais e seus funcionários atuaram para permitir que milhões de dólares passassem pelo sistema financeiro da Suíça, mesmo de forma ilegal.

De fato, a agência reguladora dos bancos, FINMA, chegou a aplicar multas a algumas das instituições financeiras do país. Entre eles, o PKB. Mas, em paralelo, o MP também abriu suas próprias investigações.

Ferdinando Coda Nunziante atuava no banco desse 1995 e, dez anos depois, assumiu um posto de direção. Segundo a imprensa suíça, ele também estava encarregado dos projetos de desenvolvimento do banco no mercado latino-americano. Ele é agora o primeiro banqueiro suíço a ser condenado no caso da Lava Jato.

O que o MP constatou foi a responsabilidade do executivo na chegada do dinheiro da corrupção brasileira. De acordo com a investigação, a relação começou em 2006, quando o PKB se aproximou da Odebrecht. O que se estabeleceu foi um sistema pelo qual o banco era usado para que o dinheiro que seria pago como propina pudesse transitar. O esquema ainda foi estabelecido em conexão com o Departamento de Operações Estruturadas da construtora, também conhecido como "Divisão de Subornos".

O que o processo alega é que Ferdinando Coda Nunziante permitiu "a circulação de bens de origem criminosa em PKB, constituindo, entre outras coisas, pagamentos corruptos destinados a compensar as autoridades brasileiras a fim de obter contratos públicos".

Um email, de acordo com a investigação, ainda seria um indício claro de como o banqueiro tinha conhecimento na natureza das transações. Em março de 2010, um dos subordinados do banqueiro enviou a ele uma mensagem comemorando a chegada de clientes brasileiros e que seriam "contrapartes da Odebrecht": Paulo Roberto Costa e Pedro Barusco, ex-executivos da Petrobras e que confessaram seus crimes. Barusco chegou a ser recebido pelo banqueiro em 2014.

Pelas contas sob supervisão do banqueiro teriam passado US$ 17,5 milhões, num ato considerado pelo MP como lavagem de dinheiro. Para as autoridades, o suíço que agora vive na Itália "falhou sistematicamente no cumprimento das obrigações de due diligence bancária".