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Jamil Chade

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Se superar ameaça golpista, Brasil será visto como esperança de resistência

Na noite de quarta-feira (13) rolou a Superlua dos Cervos, quando nosso satélite natural alcança seu ponto mais próximo da Terra. É a segunda vez que tem este fenômeno no ano -- em junho rolou a Superlua de Morango. Na imagem, o Palácio do Planalto, em Brasília - Lucio Tavora/Xinhua
Na noite de quarta-feira (13) rolou a Superlua dos Cervos, quando nosso satélite natural alcança seu ponto mais próximo da Terra. É a segunda vez que tem este fenômeno no ano -- em junho rolou a Superlua de Morango. Na imagem, o Palácio do Planalto, em Brasília Imagem: Lucio Tavora/Xinhua
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

04/08/2022 00h00

Em meu retorno nesta semana aos escritórios da ONU, em Genebra, esbarrei com um velho conhecido. Um daqueles diplomatas estrangeiros que acompanhou negociações de paz que entraram para a história e que faz parte de um grupo seleto de embaixadores que são verdadeiros acervos vivos dos nossos tempos.

Ao me avistar, ele abriu um sorriso e brincou sobre o calor que abala a Europa: "e você que pensava que vinha de um país tropical..."

Mas o motivo de sua aproximação era outro: a eleição no Brasil. Assim como dezenas de governos pelo mundo, ele não escondia sua preocupação com o que uma ruptura democrática no país poderia significar para a região. O negociador, porém, se despediu com um tom positivo. "Eu espero que vocês deem uma bela surra no movimento autoritário no mundo", disse o negociador. "Tem muita gente na torcida", completou, com os punhos fechados que se contrastavam com a sofisticada abotoadura que exibia em seu terno impecável.

De fato, todos os estudos apontam na mesma direção: a autocratização do mundo é uma realidade. Hoje, a democracia plena é um luxo que atinge apenas 6% da população mundial.

De acordo com o informe do V-Dem, na Suécia, 5,4 bilhões de pessoas no mundo viviam em 2021 em autocracias fechadas ou autocracias eleitorais. Isso representa 70% da população do planeta. A democracia liberal é um privilégio de apenas 13% das pessoas no mundo, enquanto outros 16% vivem em democracias eleitorais, como o Brasil.

Os números são os mais dramáticos desde a queda do Muro de Berlim.

Mas, nas próximas semanas, se o Brasil superar a ameaça autoritária, o país entrará na agenda internacional como um sinal de esperança e de resistência diante de um movimento de desmonte da democracia.

Se resistir às tentações de um golpe, o processo eleitoral no Brasil passará a ser citado como uma espécie de esperança de que, mesmo em sociedades em desenvolvimento, existem caminhos para a sobrevivência da democracia.

Fácil? Certamente não. Mas superar a crise poderá mostrar ao mundo do que é capaz uma sociedade civil mobilizada, uma imprensa profissional livre, plataformas digitais responsáveis, militares que sabem seu lugar e uma Justiça capaz de dar respostas.

Não é por acaso, portanto, que forças democráticas olham para as eleições no Brasil em 2022 como uma das mais importantes do ano. Seja para frear o avanço da extrema-direita ou para revelar a dimensão dos problemas que a democracia enfrenta.

No maior teste da história de nossa jovem democracia, o que está em jogo é também nossa posição no mundo. Quem somos e de que forma queremos ser considerados.

A legitimidade não vem apenas dos resultados das urnas. Mas do funcionamento das instituições, da capacidade de frear a mentira e do poder de dar às minorias garantias de sua sobrevivência.

A aventura democrática estará garantida? Certamente não. Mas, aos olhos do mundo, uma Primavera Brasileira credenciaria o país como um importante foco de resistência diante de uma das maiores ameaças às liberdades fundamentais e aos direitos humanos em décadas.