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Jeferson Tenório

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Apostando no empreendedorismo, Bolsonaro cria cenário nefasto da fome

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Jeferson Tenório

Jeferson Tenório nasceu no Rio de Janeiro, em 1977. Radicado em Porto Alegre, é doutorando em teoria literária pela PUCRS. Estreou na literatura com o romance O beijo na parede (2013), eleito o livro do ano pela Associação Gaúcha de Escritores. Teve textos adaptados para o teatro e contos traduzidos para o inglês e o espanhol. É autor também de Estela sem Deus (2018). O avesso da pele (2020) é seu romance mais recente, publicado pela editora Companhia das Letras.

Colunista do UOL

13/06/2022 04h00

Certa vez, quando discutia com meus alunos do ensino médio o livro "Quarto de despejo", de Carolina Maria de Jesus, em uma escola particular, uma aluna levantou a mão e disse que não havia entendido bem o trecho em que Carolina descrevia a fome como uma cor amarela. Tentei explicar a representação daquela metáfora, mas ela ainda continuava sem entender o que aquilo significava concretamente. Como era possível a fome ter uma cor, ela se perguntava. Até que em dado momento da aula, esta mesma aluna disse: professor, como assim ela não tinha nada para comer naquele dia? Como ela fazia, então? E os filhos dela? Como uma pessoa pode ficar sem comer? Por que ninguém a ajudava? Enquanto ela falava, tive a impressão de que aqueles questionamentos não eram para mim. Nem para Carolina. Mas para ela mesma.

Lembro ainda hoje do olhar perplexo daquela aluna diante de um texto que expunha a fome de modo dolorido e cruel. Segui a aula lendo outros trechos, no entanto, instantes depois, esta aluna pediu para sair da aula porque disse que não estava se sentindo bem. Mais tarde, ela me confessou que passou mal ao ler aquelas páginas de "Quarto de despejo".

Nesses anos como professor, percebi que o livro de Carolina incomodava meus alunos. Principalmente aqueles pertenciam a uma classe média, porque provavelmente nunca haviam experimentado a fome representada no livro de Carolina. A fome daqueles alunos tinha a ver com um certo prazer em senti-la, porque eles sabiam que a fome deles seria saciada muito em breve. Chegariam em casa e teriam o que comer.

É preciso entender que para quem não tem essa segurança, a fome não espera, a fome simplesmente acontece e não há o que fazer. A fome nos animaliza. A fome nos faz perder a dignidade. A fome nos precariza enquanto pessoas. A fome tem cor e para mim ela é verde e amarela. A fome tem ideologia: ela é fascista. A fome é também um projeto da necropolítica bolsonarista. 33 milhões de pessoas passando fome não é força do acaso. 33 milhões de pessoas passando fome não é falta de comida, é falta de gestão. 33 milhões de pessoas passando fome é inaceitável. É inconcebível.

A fome que assola 33 milhões de pessoas, segundo o levantamento do Instituto Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), revela um projeto político perverso que, primeiro acaba com diversos programas de governo de auxílio aos mais vulneráveis, depois impõe um discurso que todos devemos ser empreendedores (aqui leia-se empreendedor como um "se vira" ou "dá um jeito, porque não há emprego para todo mundo"), para em menos de 3 anos, jogar 33 milhões de pessoas a própria sorte sem ter o que comer.

A pesquisa ainda mostra que quase 60% da população brasileira vive com algum grau de insegurança alimentar. Não tínhamos números tão assombrosos desde os anos da década de 1990.

Com este cenário, o Brasil entra para o mapa da fome mundial, o que demonstra a completa falta de vontade de um governo que optou pelo discurso meritocrático e empreendedor invés enfrentar o problema de maneira mais eficiente e humana. Talvez seja importante deixar claro que empreender é uma característica humana. Ela é necessária para que avancemos enquanto sociedade. Foi empreendendo que chegamos até aqui com as nossas inovações.

Entretanto, o discurso de que é preciso empreender foi utilizado pelo governo Bolsonaro para suprir a falta de emprego. Desse modo, o empreendedor torna-se na verdade, não alguém que recebe apoio para isso, mas alguém que empreende por necessidade e desespero, se distanciando do trabalho digno. Se distanciando dos seus direitos e garantias. Num primeiro momento, essa mudança de condição de trabalho passa por uma ideia de liberdade e autonomia. Entretanto, sem a estrutura adequada para tocar o próprio negócio, o empreendedor se sujeita a condições insalubres para ter o que comer.

O governo Bolsonaro, ao apostar nesse discurso em vez de investir em políticas de auxílio à população carente, colaborou fortemente para este cenário nefasto da fome no Brasil.

Impôs à população mais desassistida um plano de governo caótico e ineficaz, que não resolve o desemprego e nem auxilia quem precisa. Volto a repetir: a fome no Brasil tem uma cor, e ela é verde e a amarela.