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REPORTAGEM

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Falta tecnologia para fiscalizar intervalos de ônibus, diz prefeito de SP

Prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), no Roda Viva - Reprodução/TV Cultura
Prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), no Roda Viva Imagem: Reprodução/TV Cultura
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José Luiz Portella

Sobre o Autor - Pós-doutorando em sociologia pela FFLCH-USP. Doutor em ciências- área história econômica Doutor em história econômica FFLCH-USP Engenheiro civil -especializado em gestão, orçamento e planejamento urbano; ocupou cargos públicos nos governos federal, estadual e municipal pesquisa medição do impacto das políticas públicas.

Colunista do UOL

25/09/2021 04h00

Entrevistei Ricardo Nunes, prefeito de São Paulo. Ele gostaria de sair da prefeitura com uma manchete: Um prefeito com a cara de São Paulo, vindo da periferia —Nunes é da zona sul e tem sua base eleitoral nos bairros de Capela do Socorro e Grajaú.

Sair deixando a sensação de haver orgulho de viver em São Paulo, sobretudo nos cidadãos da periferia. É muito difícil que os cidadãos da periferia, com a vida que têm, sintam essa satisfação desejada por Nunes. Terá sido um grande feito. A ver. Ele quer conectar a cidade, enfrentar o desafio dos moradores de rua.

O antípoda de seus sonhos é o poder do presidente da Câmara dos Vereadores, Milton Leite (DEM), sobre a prefeitura, assunto que constrange Ricardo Nunes.

O arranjo com Milton Leite ata o prefeito à Velha Política. O prefeito disse que Milton Leite tem expertise em transportes; como técnico do setor, não me consta que ele tenha qualquer conhecimento. Ele tem expertise em mandar no setor de transportes, é diferente. Ricardo Nunes expõe seus sonhos e projetos.

Em nenhum momento ele comentou sobre reforma da previdência e pacote de valorização dos funcionários. A aprovação da reforma da previdência vai deixar Ricardo Nunes mais dependente de Milton Leite.

Leia a entrevista a seguir.

Cite os 3 pontos mais positivos e os 3 mais negativos da sua administração.

Os positivos: apoio parlamentar alcançado na Câmara de São Paulo e apoio no mundo político, até [o ex-presidente] Michel Temer (MDB) ajuda; experiência de quem vem da periferia; o Bruno Covas deixou tudo organizado, finanças, plano metas. A prefeitura sabe de onde vem e aonde vai.
E os negativos: mobilidade, transportes, os novos modais; as pessoas na rua e a desigualdade social pandemia; habitação.

Qual legado deseja deixar?

Que a população tenha sentimento claro de melhora qualidade de vida e orgulho da cidade, principalmente na periferia. E percepção da desburocratização da vida das pessoas.

Qual o grande projeto para a educação?

Melhorar a nota no Idep (Índice de Desenvolvimento da Educação Paulistana). Alcançar 5,7 nos anos iniciais e 5,2, nos anos finais, em 2024. Em 2019, as notas eram de 4,9 e 4,7. Além de ampliar o número de escolas com ensino em tempo integral. A meta é ter 25% dos alunos em tempo integral até 2025. Hoje, temos 30 mil dos 422 mil alunos de ensino fundamental.

Em que cidade do mundo você se inspiraria para governar São Paulo?

Lisboa. Resolveu mobilidade, tem zero pessoa na rua, tem diversidade cultural e atrai turismo.

Qual é a sua política para adensamento do centro?

Um projeto de requalificação retrofit (requalificação de edificações) e atrair investimentos para região central. O programa requalifica centro é para edificações construídas até setembro de 1992 ou licenciadas com base na legislação vigente na época. A ideia é estimular o uso misto dos prédios, com comércio no térreo e residencial nos andares. Também tem a revisão do plano diretor e de moradias no centro.

O que você vai fazer para ajudar política de emprego?

São cinco projetos prioritários: construção de 49 mil unidades habitacionais; substituição de 20% frota de ônibus com ônibus elétrico; 220.000 famílias beneficiadas por regulações fundiárias; construção de 12 CEUs (Centro Educacional Unificado); criação de 30 km corredores de ônibus e 50 km de faixa exclusiva.

Qual projeto transformador que você tem para São Paulo?

Deixar a cidade mais conectada, com 20 mil pontos de wi-fi. Reduzir as zonas de sombra —haverá votação com acordo assinado pelas operadoras assegurando que em seis meses os dez pontos de maior necessidade estarão cobertos.

Qual é o maior dilema? O problema que precisa fugir do tradicional e ter solução nova, criativa?

O tratamento para doenças pós-covid. Haverá pontos de testes de funcionamento do pulmão e hospitais de referência para tratamento.

Milton Leite não tem muito poder sobre a prefeitura? Sobre o Executivo?

Não.

Ter todo setor de transporte nas mãos, todas as indicações e nomeações, não é muito poder?
Milton Leite tem limites, uso a expertise que cada vereador tem. Ele tem no transporte.

Como vai resolver problema do subsídio para as linhas de ônibus, que deve chegar a R$ 3,5 bi em 2021?

A PPP (parceria público-privada) nos terminais deverá diminuir o custeio em R$ 250 milhões e vamos fazer uma análise da sobreposição de linhas para enxugamento. Também vamos cobrar a parte do governo do subsídio aos alunos da rede pública estadual, que não foram pagos —em 2020 foram R$ 46 milhões; para 2021, a estimativa é de cerca de R$ 150 milhões/ano.

O que acha da privatização de parques e espaços públicos?

Sou contra. Sou a favor da concessão. Estamos economizando R$ 23 milhões/ano com o Ibirapuera.

Tem algum projeto para economia criativa?

Sim. ISS reduzido para o audiovisual.

Quanto em relação ao normal?

SP Cine com cashrebate —produções em São Paulo, investimentos em locação, cinegrafia, produção publicidade, parte tem retorno para investidores [Nunes não precisou quanto].

O que acha da elite econômica paulistana?

Tive dois encontros que me animaram, com Geise, esposa de Abílio Diniz [empresário], que contou ter levantado R$ 183 milhões para reforma do prédio do lado do Masp. E a Fundação Cultural Itaú, que pode aumentar investimentos.

Nos 100 anos da Semana de 22, o que pode ser uma nova semana, 100 anos depois?

Rememoramos o movimento. Vamos estimular a diversidade cultural, fugir da questão ideológica na cultura, para todos, para a periferia. Teremos mais 80 casas de cultura.

Você se considera conservador, liberal, social-democrata ou socialista?

Descarto rótulos, estou focado em São Paulo. Sou de centro —apoio o empreendedorismo com atenção às demandas sociais. Na economia sou moderado, com capacidade para escutar todos os setores.

E o papel da religião?

Sou católico praticante, o papel do cristianismo é respeitar o ateu, respeitar as pessoas. Amar ao próximo, respeitar as diferenças.

O que a imprensa não registrou do que fez até agora na sua opinião e gostaria de ver reconhecido?

A atuação social, junto aos mais carentes, foram milhões de cestas básicas distribuídas, 8 milhões de marmitas, R$ 1 bilhão em programas sociais de transferência de renda, o programa Sampa+Solidária e a organização do setor privado para facilitar a ajuda que eles podem dar através de geolocalização com as demandas e onde a prefeitura está atuando para não duplicar. Cerca de 100 entidades privadas que ajudam.

Qual a importância do papel de sua esposa?

Vive as alegrias e tristezas comigo. Como atuação pessoal, se dedica muito à proteção dos animais.

No transporte e trânsito o que pretende fazer depois dessa melhora que veio da pandemia e as pessoas se acostumaram?

Faixas de ônibus e ciclovias. Nas faixas, identificamos quatro modalidades para corrigir os locais que estão avariados, afundados. Vai haver uma base de concreto armado [Nota da coluna: que deveria ter sido colocada na inauguração]. Vou fazer os BRTs Aricanduva e Radial Leste.

E os buracos no sistema viário?

Vai ter grande melhoria com recuperação dos buracos com o marco regulatório das concessionárias, responsáveis por 80% dos buracos e edital de R$ 1 bilhão de recapeamento.

Como vai tirar o pessoal das ruas? Houve aumento imenso notado por todos na cidade.

[Com o] Projeto Reencontro, implantação de unidades habitacionais de 12 metros quadrados em 12 meses, pagamento para as famílias por 12 meses —46% das famílias que estão nas ruas não têm dinheiro para sustento. Isso também ajuda a fortalecer o vínculo familiar.

São possíveis frentes de trabalho para desempregados?

Sim, na manutenção da cidade, sobretudo nos parques. Já começou, com mil vagas. Vamos para 15 mil.

Vai haver mudança na planilha dos ônibus para assegurar nova forma de remuneração para empresários e garantir que tempo de intervalo (espera) seja respeitado?

Já tem no contrato o tempo de intervalo —falta tecnologia para fiscalizar. Hoje, está sendo fiscalizado pela presença do fiscal, e não dá. Vamos fazer [a implantação de tecnologia].

Como gostaria de ficar conhecido?

Um prefeito que veio da periferia e conhece seus problemas. Apaixonado pela prefeitura e que não deseja ser outra coisa, quero ser prefeito.

O MDB-SP vai apoiar qualquer um que venha a ser terceira via?

Teremos candidata, a [senadora] Simone Tebet. Não é para negociar, é para valer. Queremos que ela seja a terceira via.

Qual a manchete que gostaria de ter na sua saída do cargo?

Um prefeito com a cara de São Paulo, vindo da periferia.