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José Luiz Portella

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro enterra o Brasil na curva do rio

Rio Itaquaí na região da Terra Indígena Vale do Javari, em Atalaia do Norte (AM); funcionários de quatro bases da Funai na região afirmam que vão paralisar as operações de controle e fiscalização da entrada e saída do território - BRUNO KELLY/AMAZÔNIA REAL
Rio Itaquaí na região da Terra Indígena Vale do Javari, em Atalaia do Norte (AM); funcionários de quatro bases da Funai na região afirmam que vão paralisar as operações de controle e fiscalização da entrada e saída do território Imagem: BRUNO KELLY/AMAZÔNIA REAL
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José Luiz Portella

Sobre o Autor - Pós-doutorando em sociologia pela FFLCH-USP. Doutor em ciências- área história econômica Doutor em história econômica FFLCH-USP Engenheiro civil -especializado em gestão, orçamento e planejamento urbano; ocupou cargos públicos nos governos federal, estadual e municipal pesquisa medição do impacto das políticas públicas.

Colunista do UOL

16/06/2022 07h54

O espectro de Bolsonaro está bem visível no canto do rio, onde Bruno Araújo e Dom Phillips, depois de assassinados, esquartejados, foram enterrados.

Não foi um crime isolado e pontual.

Ali estão todas as digitais de Bolsonaro, intactas.

O Brasil de Bolsonaro transforma a Amazônia, quase metade do nosso território, em terra sem lei, onde o crime se instalou, o narcotráfico, a pesca ilegal, a mesma em que Bolsonaro foi apanhado antes de ser presidente; garimpo ilícito, violação das terras indígenas. Anomia e dor, tratadas com desprezo e insensibilidade pelo pior governo da história do Brasil.

Bolsonaro não pode ficar impune.

A impunidade, como defende a psicóloga Ana Lúcia Salmeirão, é uma das gêneses desse Brasil que temos: injusto, violento, ilegal.

Bolsonaro é responsável pela sua pregação armamentista, pelo incentivo ao garimpo ilegal em parceria com Ricardo Salles, criação de Alckmin, pela insensibilidade humana, pela forma como procura degradar as Forças Armadas brasileiras, buscando nelas um respaldo para suas bizarrices, pelo modo que transformou o Brasil numa praça de ódio e de guerra.

Bolsonaro precisa ser punido pelas rachadinhas havidas, pela atuação dos filhos, pela maneira que extraiu do Estado Brasileiro a sobrevivência material de toda família e de agregados, pelo desvio de funções como Wal do Açaí, pela forma como tratou a covid no país, pelo encaminhamento que permitiu as licitações complicadas da vacina e pelo conjunto da obra mais incivilizada da nossa história.

Bolsonaro é o símbolo da sombra do Brasil, no sentido junguiano.

Porém, a pior obra do capitão que foi excluído do Exército por sua falta de vocação, e que agora submete o ministro da Defesa aos seus caprichos, foi tirar a focinheira dos fascistas, nazistas e conservadores violentos existentes no Brasil.

Pessoas que apoiavam a covardia da tortura no Brasil, no regime militar, pessoas que abominam os pobres (aporofobia), que eles criaram com as respectivas insensibilidades misturadas com a ganância financeira; com os bancos em que não se pode deitar.

Bolsonaro retirou a focinheira e instigou o ataque, estimulou o latido e o avanço.

Isso não pode ficar impune só porque Lula tem defeitos e é odiado. Uma coisa não tem a ver com a outra.

Aliás, comparar Bolsonaro a Lula é tão absurdo quanto querer cotejar Putin a Zelensky, como responsáveis pela guerra. O que grande parte da esquerda fez.

Um criminoso de guerra genocida não pode ser cotejado a alguém que, porventura, tenha cometido o equívoco político de querer estar na Otan.

São esses erros da esquerda extremada e festiva, autoritária, que justifica seus erros pelos possíveis erros dos outros, que criaram Bolsonaro.

PT, Lula, esta esquerda imprópria são os responsáveis por Bolsonaro.

Ele não brotou do chão como a erupção de uma nascente termal, um gêiser.

Bolsonaro é produto de anos de erros dessas fontes aludidas e as respectivas soberbas. Julgam-se intelectuais que vão salvar o mundo.

Têm que pagar também pelo que fizeram com o Brasil, suscitando Bolsonaro.

Não podem ficar impunes, também.

Contudo, a não impunidade de uns, não significa indulgência para outros.

Bolsonaro é o produtor da emergência do fascismo no Brasil, o PT e a esquerda de Bolsonaro.

Todos têm contas a pagar com a sociedade brasileira, que também não é integralmente santa. É violenta, indisciplinada, "jeitosa" e permite que estejamos nessa triste bifurcação. Não somos inocentes.

Mas, Bolsonaro, que entregou a Amazônia ao crime, é o primeiro que precisa responder pelo que fez.

Bruno Araújo e Dom Phillips estão esquartejados por causa dele.