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José Luiz Portella

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Onde resvala o combate à pobreza

Bolsonaro e o carimbo da mentira  - Reprodução; Isac Nóbrega/PR
Bolsonaro e o carimbo da mentira Imagem: Reprodução; Isac Nóbrega/PR
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José Luiz Portella

Sobre o Autor - Pós-doutorando em sociologia pela FFLCH-USP. Doutor em ciências- área história econômica Doutor em história econômica FFLCH-USP Engenheiro civil -especializado em gestão, orçamento e planejamento urbano; ocupou cargos públicos nos governos federal, estadual e municipal pesquisa medição do impacto das políticas públicas.

Colunista do UOL

27/06/2022 10h44

Pobreza não dá clique.

Se o mesmo autor escreve, no mesmo espaço, uma coluna sobre um fato que domina a fofoca política, tem mais de 100.000 visitas únicas, em alguns casos, 280.000; se escrever sobre desigualdade, combate à extrema pobreza, na época em que estamos, tem 2.500 visitas.

Há uma desigualdade estrutural no Brasil, tão grave e tão forte como o racismo. Pobreza não interessa. O preço da vaidade, sim.

Isso se materializa por intermédio da apropriação, pelos mais ricos, não só, e por quem detém qualquer poder, de privilégios, a que eles acreditam ter direito inexplicavelmente. A explicação é a desigualdade estrutural internalizada na alma brasileira, desde a chegada dos europeus, ditos descobridores, para a Europa, que se achava o único Mundo.

Não houve nenhum período da história brasileira onde esses privilégios não tenham sido defendidos e agudizados pela elite com poder. "Para os amigos tudo, para os inimigos, a lei."

Como disse, não é só a elite econômica. Que é bem fraquinha e despreparada.

Judiciário, funcionários do BC e cargos da elite do funcionalismo, ministério público, se juntam à elite econômica, na criação de guetos privilegiados, sustentados pela patologia nacional do "sabe com quem está falando". Que não funciona só no momento da "carteirada", atua em todos os instantes, nas reivindicações salariais, em benesses de aposentadoria com dinheiro público, na interferência no Congresso por parte dos empresários para obter subsídios e vantagens, no sistema bancário a blindar interesses, no desejo de oligopólios e monopólios do setor privado, que quer salvar o Brasil com o enxugamento do Estado.

Onde as pessoas que detêm o poder no país, se acham portadoras de proveitos, que as distinguem dos demais, só pode vigorar a desigualdade.

Com todas as consequências: extrema pobreza, condições desumanas para os mais carentes, moradores em situação de rua.

O brasileiro é aquele que se acha esperto porque faz um contrabando pequeno na fronteira, para fins pessoais, e ataca o governo por ilicitudes. Porque esconde dinheiro em paraíso fiscais, inclusive da família, com a desculpa que o governo não controla o câmbio.

Pior são os "moralistas de TV" que vivem desconstruindo a política, em parte com razão, com relação a alguns tantos políticos, todavia não enxergam o que fazem, de fato. Não miram o espelho.

Mostrar-se simuladamente indignado para ganhar audiência, xingando o Poder Público, dá mais clique do que a discussão real sobre a Extrema Pobreza, que poderia e PODE não existir no Brasil.

O Brasil necessita de tratamento em um divã, para iluminar sua sombra. Violência, Desigualdade, Impunidade. Os três cavaleiros do nosso apocalipse.

Pessoas são capazes de destruir a Amazônia com o falso discurso dos interesses internacionais e da extensão de terras indígenas, e não atribuem a si qualquer culpa.

Somos todos inocentes, coitadinhos, vítimas de "políticos atrozes". Nunca nos cabe fazer nada, só lamentar.

Duzentos e quatorze milhões e novecentos e trinta mil bonzinhos, honestos, trabalhadores, que não fazem contrabando, não sonegam impostos, não buscam privilégios, governados por setenta mil portadores de cargos eletivos, pilantras, desavergonhados. Ninguém os elege, e repete.

Ninguém passa no sinal vermelho, ninguém faz conversão proibida, ninguém destrata o funcionário humilde, todos somos corteses. Os políticos são os culpados, sozinhos.

Ninguém mata no trânsito ou por motivo fútil no bar e no lar.

E, boa parte, políticos, pelo comportamento que têm reproduzido a sociedade de que vieram, dão azo à construção desse pensamento "vitimista".

O "coitadismo" é uma ferramenta da sociedade brasileira, aproveitando-se que vivemos num país de carentes, para mascarar as nossas ações. Contar sempre uma história de superação que justifique bater abaixo da cintura.

Transformar as falhas de Estado e de Mercado em insucessos justificados pelo "coitadismo", usurpado dos realmente coitados, é estratégia nacional de uso permanente e cínico.

Pois, saibam para a dor de consciência, que é possível extinguir a Extrema Pobreza, em São Paulo e no Brasil, em 4 anos.

Contudo, precisa dar clique, para fazer.

Ninguém muda, quando não quer mudar.