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José Roberto de Toledo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'FreeCô eleitoral' funciona para diminuir rejeição a Bolsonaro

Ex-presidente Luiz Inácio da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL) - Ricardo Stucker e Alan Santos/PR
Ex-presidente Luiz Inácio da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL) Imagem: Ricardo Stucker e Alan Santos/PR
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José Roberto de Toledo

José Roberto de Toledo é jornalista, co-apresentador do podcast Foro de Teresina e, desde 1987, faz jornalismo guiado por dados e análise de pesquisas de opinião.

Colunista do UOL

03/08/2022 11h47

A pesquisa Quaest confirma o viés de baixa na chance de a eleição acabar no 1º turno - mesmo viés que havia aparecido no Datafolha semana passada.

Segundo a Quaest, Lula tem 50,5% dos votos válidos, contra 51% no mês anterior e 52% dois meses antes. Para se eleger no 1º turno, Lula precisaria de 50% + 1 voto.

Nem na campanha petista esse cenário é visto como provável. Está mais para torcida do que para convicção.

  • Variações dentro da margem de erro contam? Se ocorrem sempre no mesmo sentido e são confirmadas por mais de uma pesquisa, sim, contam, pois configuram uma tendência.
  • Um candidato pode variar um ou dois pontos por pesquisa e ao final de cinco meses ter crescido fora da margem de erro. Foi o que aconteceu com Bolsonaro: desde março, cresceu de 26% para 32% na estimulada, segundo a Quaest.

O que mudou? A popularidade de Bolsonaro está em alta. Ponto a ponto, ele vai melhorando sua avaliação entre os mais pobres, especialmente quem ganha Auxílio Brasil.

  • Entre os beneficiários do antigo Bolsa Família, a avaliação positiva do governo cresceu 10 pontos desde o fim de maio e chegou a 28% no começo de agosto.
  • No mesmo grupo, a intenção de voto em Bolsonaro cresceu 11 pontos em 2022, de 18% para 29%.

Por que mudou? A conversão de críticos em simpatizantes, e de simpatizantes em eleitores é um processo. Como Carluxo gosta de dizer, tem método: faturar os fatos positivos, terceirizar a culpa dos fatos negativos, demonizar os adversários para eles parecerem pior que Bolsonaro.

  • O governo incentivou por tabela o aumento do preço da gasolina promovendo uma bagunça no comando da Petrobras - para depois faturar com a queda da cotação do petróleo no exterior e dos combustíveis no Brasil. Segundo a Quaest, caiu de 28% para 21% a fatia dos que atribuem a alta de preços ao governo; a maioria atribui a fatores externos (34%), aos governadores (12%) ou à Petrobras (18%).
  • O governo faturou por antecipação o aumento de R$ 200 no valor do Auxílio Brasil. O pagamento com 50% a mais só cai na conta a partir da próxima semana, mas 82% já sabem que isso vai acontecer, segundo a Quaest.
  • Mais do que isso, a capacidade de pagar as contas melhorou para 27% dos brasileiros, uma alta de seis pontos em comparação ao mês anterior.

O método de Carluxo e companhia fez diminuir a rejeição a Bolsonaro de 66% para 55% desde o começo do ano. Ainda é muito alta, mas é um processo, e esse processo está em curso.

  • No fim de maio, a rejeição de Bolsonaro era 20 pontos maior que a de Lula; hoje a diferença é bem menor, de 10 pontos: 55% a 44%.
  • Entre os 43% que se informam sobre política principalmente pela TV, a avaliação negativa do governo Bolsonaro é mais do que o dobro da positiva: 48% a 21%.
  • Entre os 27% da população que se informam via redes sociais, a avaliação positiva do governo Bolsonaro equivale à negativa (37% a 36%). O efeito Carluxo é poderoso.

E daí? A queda na rejeição de Bolsonaro permite a ex-críticos do governo se transformarem em simpatizantes e, eventualmente, em eleitores. É como se preparar para engolir algo malcheiroso: tem que tapar o nariz primeiro. O gesto de pinçar as ventas equivale a convencer-se de que a situação econômica pessoal está melhorando ou vai melhorar.

O governo conseguiu vender anti-odores em massa nas redes sociais e em Brasília, uma espécie de FreeCô eleitoral.

  • Aumento do valor do Auxílio Brasil para os mais pobres;
  • Redução do preço da gasolina para a classe média;
  • Medo de venezuelização para os mais ricos;
  • Demonização de Lula para evangélicos;
  • Orçamento secreto para os parlamentares;
  • Cargos em comissão para militares.

É suficiente para Bolsonaro se reeleger? Ainda não. Mas está mostrando que funciona para levar a eleição ao 2º turno e estreitar a vantagem do adversário. É o cenário necessário para Bolsonaro não reconhecer o resultado das urnas e tentar se perpetuar no cargo com o apoio do Arenão.