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Chefe da Secom manda às favas o senso de ridículo

Alan Santos/PR
Imagem: Alan Santos/PR
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

14/02/2020 02h51

Há pessoas que não têm medo do ridículo. Absolutamente. Agem como se considerassem o preconceito contra o ridículo a coisa mais ridícula do mundo. É o caso do chefe da Secretaria de Comunicação do Planalto, Fabio Wajngarten.

Dono de empresa que recebe dinheiro de emissoras de TV e agências publicitárias que têm contratos com a Secom, Wajngarten teve uma ideia ridiculamente genial. Endereçou-a à Comissão de Ética Pública da Presidência

Para dissolver o conflito de interesses, o chefe da Secom se dispõe a passar suas cotas na empresa (95%) para Sophie Wajngarten (5%). Por uma dessas trapaças da sorte, trata-se de sua mulher.

Fábio e Sophie Wajngarten são casados no regime de comunhão parcial de bens. Significa dizer que estão atados por um tipo de matrimônio em que todo o patrimônio amealhado a partir da união é compartilhado.

Bom, muito bom, extraordinário. Num governo como o de Jair Bolsonaro, que valoriza a família, chega-se a uma solução caseira em três lances:

1) O chefe da Secom finge que deixou a empresa;

2) Os órgãos de controle fazem de conta que acreditam;

3) O brasileiro se finge de bobo para que Wajngarten possa fazer ao país o favor de continuar conduzindo os negócios da comunicação oficial.

Desde que foi pendurado nas manchetes de ponta-cabeça Wajngarten sustenta que as dúvidas estão todas esclarecidas. Incomoda-se com as perguntas. Atribui a sobrevida do tema a uma perseguição da Folha —não a ele, mas ao presidente.

Wajngarten informara no início, com uma impaciência imperial, que "não há nada de irregular". As explicações do doutor caminharam sempre um passo atrás da revelação de novas inconsistências. Jair Bolsonaro deu de ombros: "Se foi ilegal a gente vê lá na frente."

Juntos, o "não há nada" e o "a gente vê lá na frente" revelam a fé dos personagens em que, dentro de pouco tempo, tudo estará esquecido e os repórteres, esses seres inconvenientes, acabarão mudando de assunto.

Num ambiente em que faltam as respostas, sobram os gênios das soluções caseiras e o ridículo. A diferença entre a genialidade e o ridículo é que a genialidade tem limites. Quando um presidente e seu subordinado perdem o medo do ridículo, a primeira vítima é a esperança das pessoas que acreditaram que seria diferente.

Josias de Souza