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Comissão de Ética se autojulga no caso Wajngarten

Alan Santos/PR
Imagem: Alan Santos/PR
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

18/02/2020 02h50

A Comissão de Ética Pública da Presidência se reúne nesta terça-feira. Imagina-se que analisará o caso de Fabio Wajngarten, chefe da Secretaria de Comunicação do Planalto. Engano. Fará, na verdade, um autojulgamento. Com seu veredicto, a comissão dirá à sociedade como deseja ser tratada —com respeito ou desprezo.

No momento, o principal problema ético da comissão é que a plateia é incapaz de reconhecer sua honestidade de propósitos. Se não forem capazes de demonstrá-la, os membros do colegiado informarão aos brasileiros que o acompanhamento de suas atividades é apenas mais uma modalidade de desperdício de tempo.

Um pedaço da Comissão de Ética namora a ideia de arquivar o caso. Sabe-se que, antes de ser escolhido por Bolsonaro para chefiar a comunicação do Planalto, Wajngarten era sócio majoritário e dirigente de uma empresa que escora seu faturamento em contratos com emissoras de TV e agências de publicidade que vendem serviços ao governo, inclusive à Secom.

Nomeado, o doutor afastou-se da gerência da empresa, mas continuou sendo dono de 95% do negócio. Converteu-se em matéria-prima para reportagens da Folha. Além de apontar o conflito de interesses, o jornal demonstrou que, sob Wajngarten, emissoras e agências atendidas por sua empresa elevaram seu faturamento no governo.

Pilhado, Wajngarten vinha sustentando que não fizera absolutamente nada de errado. Afastara-se da gestão de sua empresa, segundo disse, por recomendação da Subchefia de Assuntos Jurídicos do Planalto, pela Advocacia-Geral da União e pela Controladoria-Geral da União. Só gogó. Nada de documentos.

Descobriu-se que, na verdade, Wajngarten omitira dados ao preencher declaração que entregou à Comissão de Ética Pública. Absteve-se de informar sobre as atividades de sua empresa e os contratos que ela mantém com prestadores de serviço ao governo.

De repente, o próprio Wajngarten sugeriu em defesa encaminhada à Comissão de Ética um ajuste na situação que ele dissera estar absolutamente regular. Para dissolver o conflito de interesses que dizia não existir o chefe da Secom se dispõe a passar suas cotas na empresa (95%) para outra pessoa: sua mulher, Sophie Wajngarten. Espanto (!), pasmo (!!), estupefação (!!!).

Conforme já comentado aqui, funcionaria assim: O chefe da Secom fingiria que deixou a empresa; os órgãos de controle fariam de conta que acreditam; e o brasileiro se fingiria de bobo para que Wajngarten pudesse continuar fazendo ao país o favor de conduzir os negócios de comunicação do governo.

Diante de um cenário assim, os doutores da Comissão de Ética precisam esboçar algum tipo de reação —nem que seja uma cara de nojo. Do contrário, se autocondenarão à pena do desprezo. Ficará claro que Deus precisa parar de dar trombone a quem não tem sopro.

- Atualização feita 13h58 desta terça-feira (18/02): Deu-se o pior: a Comissão de "Ética" Pública da Presidência optou por arquivar o caso do chefe da Secom. Fez isso sem esboçar nem mesmo o interesse em apurar o caso. Quer dizer: A comissão informa ao país que não merece respeito.

Josias de Souza