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Despreocupação com os panelaços é preocupante

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

20/03/2020 18h39

Nos últimos dias, as ruas e as janelas forneceram sinais valiosos. Mas Jair Bolsonaro, de posse das informações, tirou suas próprias confusões.

"Não tem preço", disse o presidente ao confraternizar com apoiadores, na frente do Planalto, na manifestação anti-Congresso e anti-STF.

"Não estou preocupado com panelaço", afirma agora Bolsonaro sobre o som estridente das panelas, que voltou a soar por trás das cortinas. A avaliação de Bolsonaro está errada nos dois casos.

A manifestação de domingo teve um preço político. E não saiu barato.

Ao estimular a aglomeração e confraternizar com apoiadores na quina do meio-fio, o presidente da República reforçou a impressão de que menospreza um fenômeno com potencial para descer ao verbete da enciclopédia como a maior e mais devastadora pandemia da história.

Bolsonaro parecia cutucar a sociedade com o pé para ver se ela ainda morde. Os panelaços representam os dentes de uma classe média que emite sinais de enfado com o comportamento do presidente.

Ao dizer que não está preocupado com o alarido das panelas, Bolsonaro afirma, com outras palavras, o seguinte: "Quem não está gostando que se dane."

O capitão parece supor que a fidelidade de sua tropa de apoiadores é suficiente para levá-lo ao segundo turno em 2022. Trata-se de uma aposta cada vez mais arriscada.

"Eu estou preocupado com o vírus, com a saúde e com o emprego do povo brasileiro", disse Bolsonaro. Admita-se que as palavras sejam sinceras. Nesse caso, o orador precisa parar de supervalorizar o "Messias" que carrega no sobrenome.

Se as panelas servem para alguma coisa é para informar que um pedaço da classe média brasileira enxerga evidências de que o "Messias" do Planalto precisa concluir que também está sujeito à condição humana. Um pouco de humildade faria bem.

Josias de Souza