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Defendido por Heleno, Bolsonaro fica mais indefeso

Reuters
Imagem: Reuters
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

17/05/2020 05h09

Num esforço extra para defender Jair Bolsonaro da acusação de interferir politicamente na Polícia Federal, o general Augusto Heleno divulgou uma nota. Quem lê o texto fica com a impressão de que, defendido pelo amigo, o presidente tornou-se um personagem ainda mais indefeso.

Chefe do Gabinete de Segurança Institucional, o GSI, Heleno abraçou a versão segundo a qual Bolsonaro falava de sua segurança pessoal, não da Polícia Federal, quando mencionou na reunião ministerial de 22 de abril o desejo de fazer uma troca no Rio de Janeiro.

Reiterando algo que já dissera em depoimento à PF, o general explicou que o presidente não falava a sério. Nessa versão, Bolsonaro quis apenas dar um exemplo. Vale a pena reproduzir os termos do "exemplo" formulado pelo presidente:

"Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro oficialmente e não consegui. Isso acabou. Eu não vou esperar foder minha família toda de sacanagem, ou amigo meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence à estrutura. Vai trocar; se não puder trocar, troca o chefe dele; não pode trocar o chefe, troca o ministro. E ponto final. Não estamos aqui para brincadeira."

Qualquer criança de cinco anos percebe que as palavras de Bolsonaro soaram não como um hipotético exemplo, mas como uma concreta ameaça. Ao jogar a reunião ministerial no ventilador, Sergio Moro informou que era da Polícia Federal que Bolsonaro falava, não da segurança presidencial.

Heleno teve de voltar ao assunto porque uma notícia veiculada pela TV Globo mostrou que Bolsonaro realizou trocas na sua segurança dias antes da reunião. Não parecia irritado com alguma "sacanagem" urdida para "foder" sua família. Ao contrário.

O presidente promoveu o diretor do Departamento de Segurança Presidencial, alçando-o ao comando da 8ª Brigada de Infantaria. Noutro indício de satisfação, colocou no lugar dele o número dois do setor. De resto, trocou o chefe do GSI no Rio de Janeiro. Sem nenhuma resistência.

Deu-se algo bem diferente na Polícia Federal. Ali, como se sabe, tudo virou de ponta-cabeça. Bolsonaro levou à bandeja o escalpo do diretor-geral, Moro desembarcou, e o comando do órgão no Rio foi trocado. Exatamente como ameaçara o presidente: "Vai trocar; se não puder trocar, troca o chefe dele; não pode trocar o chefe, troca o ministro. E ponto final."

Sergio Moro deixou a reunião depois de ouvir a ameaça do presidente. Antes de desembarcar do governo, esteve com os generais palacianos: Heleno, Braga Netto (Casa Civil) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo). Os três tentaram convencê-lo a ficar.

Curioso que Heleno não tenha dito para Moro algo assim: "Deixa de bobagem, amigo. Você entendeu tudo errado. O presidente falava hipoteticamente sobre a segurança pessoal dele. Tudo não passou de uma gripezin..., digo, de um exemplo."

A pretexto de socorrer Bolsonaro, um amigo em apuros, o general namora o ridículo. E vem sendo totalmente correspondido. Beleza. Cada um faz com sua biografia o que bem entender. O que não é aceitável é que Heleno peça ao brasileiro para fazer como ele, fingindo-se de bobo pelo bem do presidente.

Josias de Souza