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Queiroz adiciona imponderável no fundo do poço

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

18/06/2020 15h23

Jair Bolsonaro percorre um cenário de fundo do poço. Nele, a pandemia e a ruína econômica misturam-se a uma agenda explosiva, que tem três itens: um inquérito criminal em que o presidente é acusado de intervir politicamente na Polícia Federal, dois inquéritos que varejam o aparato político-militante-empresarial do bolsonarismo e meia dúzia de pedidos de cassação da chapa presidencial na Justiça Eleitoral. A prisão de Fabrício Queiroz adicionou nessa conjuntura abismal um elemento explosivo: o imponderável.

Fabrício Queiroz está pendurado nas manchetes de ponta-cabeça há um ano e meio. Nesse período, Bolsonaro e o primogênito Flávio poderiam ter providenciado uma explicação para suas relações com o personagem. Mas forneceram apenas desconversa e manobras diversionistas. Consolidou-se a impressão de que a parceria com Queiroz, por inexplicável, tornou os Bolsonaro personagens indefesos. As circunstâncias da prisão colocam o amigo de três décadas do presidente e ex-assessor do filho dentro dos palácios de Brasília.

No enredo ficcional que os Bolsonaro construíram para tentar se distanciar da encrenca, pai e filho comportavam-se como se não devessem nada a ninguém, muito menos explicações. O Queiroz tem que explicar isso daí, dava de ombros o presidente. Quem tem que dar explicação é o senhor Queiroz, ecoava o Zero Um. Nessa versão, a primeira-família não mantinha mais contato com o investigado. Súbito, descobriu-se que Queiroz estava escondido num imóvel do advogado de Jair e Flávio, o doutor Frederick Wassef.

O advogado é frequentador assíduo dos palácios do Planalto e do Alvorada. Na véspera da prisão de Queiroz, o doutor esteve na posse do novo ministro das Comunicações, Fábio Faria. O lero-lero que tentava fazer crer que Queiroz era um personagem do passado, com o qual o presidente e seu filho não mantinham nenhum contato, tornou-se um atentado à inteligência alheia.

Até a manhã desta quinta-feira, Bolsonaro governava contra um pano de fundo em que piscava o letreiro luminoso com a pergunta incômoda: Onde está o Queiroz? Agora já se sabe onde estava e para onde foi levado o ex-faz tudo dos Bolsonaro. Com Queiroz na prisão, há uma nova pergunta na praça: onde está o Bolsonaro? O presidente não se animou a conversar com seus devotos no cercadinho do Alvorada. Logo terá que dizer meia dúzia de palavras sobre o ex-amigo. Se continuar soando incompreensível, aprofundará o poço sem se livrar do imponderável.

Preso preventivamente, sem prazo para sair, Queiroz tentará obter na Justiça um habeas corpus. O personagem pode percorrer agora um de dois cenários: pode se imolar, ateando fogo às próprias vestes. Também pode tocar fogo no circo. A lealdade aos Bolsonaro é desafiada por um detalhe: a prisão da mulher de Queiroz, Maria Oliveira de Aguiar.

Josias de Souza