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Acuado, Bolsonaro leva seu governo para o brejo

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

19/06/2020 03h43

Fabrício Queiroz foi jogado no ventilador no final de 2018, quando virou notícia. Houve um dia em que Jair Bolsonaro poderia ter saído da crise, tomando a trilha da moralidade. Foi em 12 de dezembro daquele ano. Faltavam 19 dias para a posse. Bolsonaro disse: "Se algo estiver errado —seja comigo, com meu filho ou com o Queiroz— que paguemos a conta deste erro. Não podemos comungar com erro de ninguém." Era só continuar nessa linha. Mas Bolsonaro mudou de ideia. Achou que seria possível regatear o custo da crise. A prisão de Queiroz elevou o prejuízo.

Um presidente precisa abrir o expediente todas as manhãs oferecendo soluções. Há duas emergências sobre a mesa: a pandemia e a ruína econômica. Horas depois da prisão de Queiroz, o Banco Central divulgou o Índice de Atividade Econômica do país em abril: um tombo histórico de 9,7%. Bolsonaro não tem nada a dizer sobre os mortos da covid-19. Limita-se a lavar as mãos e questionar as estatísticas sem provas. Ainda não apresentou uma estratégia para enfrentar a tragédia econômica. No momento, o presidente oferece ao país tuítes, lives e brigas. Acuado, entrega-se ao centrão. Bolsonaro consolida-se como parte do problema.

O presidente conseguiu transformar um pesadelo criminal do amigo Queiroz e do primogênito Flávio num processo de corrosão da sua Presidência. Habituado a operar no ataque, Bolsonaro experimenta o amargor das posições defensivas. Em privado, diz ser vítima de perseguição do Judiciário. Em público, após um dia de silêncio, dedicou os minutos iniciais de sua live semanal noturna a Queiroz. Falou pouco. Calou muito. O pouco que disse foi patético. O muito que deixou de afirmar foi revelador.

Bolsonaro soou patético ao fazer as vezes de defensor do amigo enroscado com a lei: "Não sou advogado do Queiroz e não estou envolvido nesse processo. Queiroz não estava foragido e não havia nenhum mandado de prisão contra ele. E foi feita uma prisão espetaculosa. Já deve estar no Rio de Janeiro, deve estar sendo assistido por seu advogado, e que a Justiça siga o seu caminho. Mas parecia que estavam prendendo o maior bandido da face da Terra."

O presidente não fez uma mísera menção ao filho Flávio Bolsonaro. Seu silêncio é revelador. Diz muito sobre a situação em que se encontra o primogênito. Ele já protocolou em diferentes instâncias do Judiciário uma dezena de recursos pedindo a suspensão ou o arquivamento do inquérito sobre a rachadinha, eufemismo para desvio de verbas públicas. Não conseguiu senão potencializar a impressão de que percorre a conjuntura como um personagem indefeso.

Para Bolsonaro, o prejuízo é mais político do que judicial. Por enquanto, quem está com os glúteos expostos no processo é o Zero Um. Acusam-no de chefiar uma "organização criminosa". Responde pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. Mas ninguém ignora que foi o pai quem indicou Queiroz, amigo de 30 anos, para a função de operador dos recursos desviados da folha salarial do gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro.

Embora o presidente não seja investigado, há nos autos um cheque de R$ 24 mil de Queiroz para a primeira-dama Michelle Bolsonaro. De resto, flutua na atmosfera o risco de delação. Em junho, do ano passado, ganhou o noticiário uma troca de áudios pelo WhatsApp. Num deles, Queiroz soou ameaçador: "Eu não vejo ninguém mover nada para tentar me ajudar aí. Vê, tal. É só porrada cara, o MP está com uma pica do tamanho de um cometa para enterrar na gente e não vem ninguém agindo."

A mensagem surtiu efeito. Foi nessa época que Queiroz mudou-se para um imóvel do advogado Frederick Wassef, defensor de Flávio e também do presidente. Consumada a prisão, o capitão se esforça para tomar distância de Fred, como o doutor é tratado na primeira-família. Esforço inútil. Bolsonaro já foi gravado referindo-se a Frederick como seu advogado. O personagem tornou-se frequentador assíduo do Planalto e, sobretudo, do Alvorada. Não há borracha ou conveniência capaz de apagar um convívio assim, tão intenso.

A prisão de Queiroz empurrou Bolsonaro para o córner num instante em que o presidente já enfrenta um cerco judicial. É investigado por tramar a conversão da Polícia Federal num aparato político. Assiste ao avanço do Supremo sobre a indústria de ódio mantida pelo bolsonarismo nas redes sociais e nas ruas. Sente o hálito quente da Justiça Eleitoral, às voltas com meia dúzia de pedidos de cassação da chapa com o vice Hamilton Mourão.

Sabia-se que o governo estava enfraquecido e sem rumo. Descobre-se aos poucos que Bolsonaro fez uma opção preferencial pela crise. O que estimula a suspeita de que o rumo pode vir a ser o do brejo. Antes, discutia-se o potencial do projeto de Bolsonaro de disputar a reeleição em 2022. Agora, emerge uma indagação incômoda: será que o capitão conclui o mandato?

Josias de Souza