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No primeiro teste, o centrão deixou Guedes a pé

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

29/09/2020 19h47

Na primeira oportunidade, o centrão deixou Paulo Guedes na mão. Ao insistir na proposta de recriar a CPMF, o ministro da Economia revelou-se refém de uma nova ilusão —a ilusão de que a aliança com o centrão revigorou no Congresso a agenda de reformas liberais. O ministro não se deu conta de que a política se desenvolve em duas dimensões. Numa, as discussões ocorrem na arena pública, sob a luz do Sol. Noutra, os interesses são trançados no escurinho.

Até outro dia, Bolsonaro e o centrão brigavam. De repente, apagaram-se as luzes e produziu-se a conciliação. Restaurou-se o toma lá, dá cá. Tudo muito lindo e necessário. Sem fazer política, o governo não sai do lugar. Mas faltou responder algumas perguntas simples. O que a turma do centrão quer tomar do governo? O que Bolsonaro se dispõe a dar? O que o presidente exigiu em troca?

Para elucidar essas dúvidas, seria necessário acender a luz para verificar se há reformas constitucionais e políticas públicas sobre o balcão. A reforma tributária com a recriação da CPMF seria o primeiro grande teste de fidelidade do centrão. Não funcionou. Até aqui, sabe-se que Bolsonaro deu cargos ao centrão. E ainda não recebeu nada além de promessas de blindagem pessoal e familiar.

O imposto sobre transações digitais de Paulo Guedes foi devolvido ao freezer. Junto com ele a ideia de uma ampla desoneração da folha salarial as empresas. O ministro ficou numa posição parecida com a de um personagem de Shakespeare, o rei Ricardo 3º. Equipando-se para uma batalha, o rei requisitou a preparação de seu cavalo preferido.

O ferreiro ajustou as três primeiras ferraduras. Verificou que faltavam dois pregos para a fixação da quarta. Na correria, a ferradura foi colocada de qualquer jeito. No fervor da batalha, a ferradura se desprendeu. O animal caiu. E o rei, no chão, fez o célebre apelo: "Um cavalo! Meu reino por um cavalo!". O centrão oferece a Paulo Guedes e suas reformas a segurança de um cavalo com a ferradura frouxa. O ministro descobriu que continua a pé.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL