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Descrição da PF deixa senador da cueca pelado

O senador Chico Rodrigues foi um dos senadores com mais emendas liberadas neste ano - Agência Senado
O senador Chico Rodrigues foi um dos senadores com mais emendas liberadas neste ano Imagem: Agência Senado
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

16/10/2020 01h12

Para evitar a "humilhação pública", o ministro Luís Roberto Barroso, do STF, mandou a Polícia Federal guardar no cofre o vídeo que expõe a batida policial realizada sob a cueca do senador Chico Rodrigues. A exibição tornou-se desnecessária. A simples reprodução do relato da PF deixou o investigado pelado, expondo ao país o nu que ninguém pediu, que ninguém queria ver, que já não espanta ninguém.

Barroso reproduziu nacos da descrição da PF no despacho em que submete ao Senado sua decisão de afastar Chico Rodrigues do exercício do seu mandato por 90 dias. Foram extraídos do interior da cueca do senador R$ 33,150 mil. "Próximo às suas nádegas", havia R$ 15 mil. Na parte "frontal", R$ 17,9 mil. Numa derradeira incursão, foram encontrados mais R$ 250.

Antes da fase proctológica, a PF apreendera num cofre localizado no armário do quarto do senador R$ 10 mil e US$ 6 mil. Súbito, o investigado pediu para ir ao banheiro. Ao segui-lo, o delegado Wedson Cajé, que comandava a ação, "percebeu que havia um grande volume, em formato retangular, na parte traseira" do short de pijama azul que o senador vestia.

Pergunta daqui, nega dali, o investigador decidiu realizar uma visita à região das ancas. Bingo! O volume retangular era feito de maços de notas de R$ 50. Na sala de estar, perguntou-se ao senador se havia outras surpresas escondidas na cueca. Indagou-se uma, duas, três vezes. Irritado, Chico Rodrigues "enfiou a mão em sua cueca, e sacou outros maços de dinheiro". Embora a cifra fosse maior, o volume era menor, pois as notas eram de R$ 200.

A certa altura, informou a PF, o senador baixou parcialmente o short do pijama, expondo partes íntimas de sua figura. Barroso avaliou que "o registro exibe demasiadamente a intimidade do investigado." Apura-se o desvio de verbas federais destinadas a combater a pandemia em Roraima. A pilhagem foi estimada em R$ 20 milhões.

Confirmada a culpa, escreveu Barroso, "estará justificada a punição" do senador. É "desnecessária a humilhação pública." O ministro tem razão. Até porque o investigado não seria o único humilhado. A política brasileira vive há tempos a mais despida das épocas. O excesso de obscenidade humilha também a plateia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL