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Josias de Souza

Mourão vê racismo como vovozinha disfarçada

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

20/11/2020 19h33

Num instante em que o Brasil deveria celebrar o Dia da Consciência Negra, ganhou as redes sociais um vídeo com imagens ultrajantes. Exibem o assassinato de um negro, no estacionamento de um supermercado da rede Carrefour, em Porto Alegre, por dois seguranças, ambos brancos. O cliente do supermercado que foi brutalmente espancado se chama João Alberto Silveira Freitas. Tinha 40 anos.

O episódio ressuscitou um debate enfadonho sobre racismo. E o vice-presidente Hamilton Mourão decidiu frequentar o debate com um veredicto categórico: "Para mim, no Brasil não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar aqui para o Brasil, não existe aqui." Mourão classificou o assassinato de "lamentável". E atribuiu a morte ao fato de que a segurança do supermercado estava "totalmente despreparada para a atividade que tem que fazer." A frase de Mourão é uma versão racial do negacionismo do governo. Nessa matéria, a opinião do vice se harmoniza com a do presidente Jair Bolsonaro.

As evidências da existência de racismo no Brasil aparecem em toda parte. A violência é apenas uma face do problema. Na era digital, ficou mais difícil de esconder. O celular tornou-se uma arma poderosa contra a truculência de seguranças e de policiais. Com duas vantagens: o celular não atira para matar. E sempre acerta dois alvos com um único disparo: o criminoso e seus superiores hierárquicos —sejam governadores ou empresários.

Todos precisam se explicar. Nós, jornalistas, falhamos, porque registramos o descalabro, a consternação e as desculpas. Mas não acompanhamos os processos para verificar se houve punição.

O silêncio de Bolsonaro fez de Mourão a voz oficial do governo na repercussão sobre o assassinato do negro no supermercado gaúcho. A partir da fala do vice-presidente intensificou-se nas redes sociais a discussão sobre se houve ou não um componente de racismo no crime.

Os indícíos sinalizam que sim. Mas talvez falte um crachá. As orelhas são de Lobo, os dentes são de lobo, o focinho é de Lobo. Mas Mourão avalia que o país está diante de uma vovozinha disfarçada de segurança mal treinado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL