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Josias de Souza

Bolsonaro injeta escárnio no caso da rachadinha

Sergio Lima/AFP
Imagem: Sergio Lima/AFP
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

22/11/2020 04h15

A Justiça, como se sabe, é cega. Mas certos magistrados desenvolvem requintados mecanismos de audição. Tome-se o caso do desembargador Bernardo Garcez. É corregedor-geral de Justiça do Rio de Janeiro. Integra a Turma Especial do Tribunal de Justiça do estado. É esse colegiado que julgará o processo sobre o caso da rachadinha, estrelado por Flávio Bolsonaro. Na última sexta-feira, o doutor e suas orelhas estiveram com o pai do investigado. Sem alarde, permaneceram com Jair Bolsonaro por duas horas, no Palácio do Planalto.

O encontro com o desembargador foi solicitado pelo presidente da República. Sobre o que conversaram? O Planalto não informa. O Tribunal de Justiça do Rio alega que o colóquio foi sobre "assuntos gerais de interesse da administração pública." Hummmm... Nada relacionado com processos judiciais. Então, tá! Mencionaram-se dois exemplos: 1) Os desafios do Judiciário durante a pandemia; 2) A participação do chefe da Corregedoria-Geral de Justiça do Rio num comitê de modernização de ambiente de negócios.

Bolsonaro dá as costas para o coronavírus sob o falso argumento de que foi chutado para escanteio pelo Supremo. Recusa-se a instituir uma coordenação nacional para a pandemia. De repente, posiciona-se junto à bandeira do córner para recolocar a bola em jogo. Preocupa-se agora com os "desafios do Judiciário" na guerra contra o vírus. Poderia reunir-se com Luiz Fux, presidente da Suprema Corte. Mas prefere prestigiar o doutor Bernardo Garcez que, por acaso, participará do julgamento do Zero Um. Curioso, muito curioso, curiosíssimo.

Não fosse o faro de Bolsonaro, ninguém imaginaria, de resto, que o talento para a "modernização do ambiente de negócios" estivesse escondido justamente na Turma Especial do Tribunal de Justiça do Rio, em meio às folhas do processo que enroscou Flávio Bolsonaro num esquema que resultou num desvio estimado em R$ 6 milhões. O presidente não se cansa de surpreender o país. Revela agora uma insuspeitada habilidade para reconhecer méritos excepcionais.

Bem verdade que a aproximação de Bolsonaro com Bernardo Garcez deixa o desembargador em constrangedora posição. Na hora de julgar o primogênito, se exibir posições favoráveis ao investigado, o magistrado não se livrará dos comentários maledicentes. De nada adiantará dizer que decidiu conforme suas convicções. Existe algo mais suspeito do que uma conduta absolutamente irrepreensível?

Sob Bolsonaro, o escárnio vai adquirindo na Presidência da República uma doce, uma persuasiva, uma admirável naturalidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL