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Josias de Souza

Fatos colocam CoronaVac no colo de Bolsonaro

vacina de oxford-astrazeneca - Elzbieta Krzysztof/Shutterstock
vacina de oxford-astrazeneca Imagem: Elzbieta Krzysztof/Shutterstock
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

26/11/2020 20h46

Jair Bolsonaro está prestes a cair numa arapuca que ele próprio armou. A conjuntura empurra para o colo do presidente a CoronaVac, batizada por ele de "vacina chinesa do João Doria."

Após desqualificar a vacina do laboratório Sinovac, testada no Brasil pelo Instituto Butantan, Bolsonaro informou aos chefes de estado do Brics, entre eles o chinês Xi Jinping, que "o Brasil busca e trabalha para uma vacina própria" contra a Covid-19.

Era lorota. Não há imunizante próprio. Bolsonaro referia-se à vacina desenvolvida pela farmacêutica AstraZeneca, em parceria com a universidade britânica de Oxford. É nessa vacina que o governo apostou dinheiro e suas melhores fichas.

A semana começou com uma novidade alvissareira. Mas terminou em vexame. O que parecia ser uma grande notícia virou um fiasco. Primeiro, informou-se que a "vacina própria" de Bolsonaro teria eficácia de 90%. O Planalto soltou fogos.

Entretanto, vieram à luz dados esquisitos. Testes realizados com voluntários no Reino Unido e no Brasil sinalizaram que a eficácia média observada foi de 62% quando aplicadas duas doses completas da vacina no intervalo de um mês.

A eficiência de 90% só foi alcançada em pacientes que receberam por engano uma dose e meia da vacina. A comunidade científica e autoridades certificadoras dos Estados Unidos levaram o pé atrás.

Crivada de interrogações, a AstraZeneca admitiu que terá de realizar novos testes. Subiu no telhado a perspectiva de aplicar rapidamente no Brasil a vacina avalizada por Oxford, que chegará ao país por meio de convênio firmado com a Fiocruz.

Há vacinas concorrentes na praça —a da Pfizer e a da Moderna, por exemplo. Mas o Brasil demorou a entrar na fila. É grande a chance de a CoronaVac ser a primeira vacina colocada à disposição dos brasileiros, no alvorecer de 2021.

Significa dizer que Bolsonaro deve ser condenado pelas circunstâncias a autorizar algo que desautorizou: a compra de milhões de doses da "vacina chinesa do João Doria" pelo Ministério da Saúde.

O general Eduardo Pazuello, suposto ministro da Saúde, tentou se antecipar, firmando com o Butantan um convênio para a aquisição de 46 milhões de doses da CoronaVac. Bolsonaro mandou desfazer, humilhando o auxiliar.

O presidente chegou a festejar nas redes sociais o que imaginou ser o fiasco do seu rival político. Tratou como evidência de insucesso da vacina testada pelo Butantan a morte de um voluntário que cometeu suicídio.

Além de desrespeitar a família do voluntário morto e de sapatear sobre a expectativa dos "maricas" que anseiam pela chegada de vacinas que os livrem da Covid-19, Bolsonaro conseguiu armar uma arapuca para si mesmo.

Aos pouquinhos, os fatos vão ensinando a Bolsonaro que, em matéria de vacina, a diferença entre a genialidade política e a estupidez é que a genialidade tem limites. A essa altura, o capitão deve conviver com uma torcida interior para que o Butantan tropece.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL