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Josias de Souza

Governo Bolsonaro agora cogita confiscar vacina

Reprodução/Redes Sociais e Marcos Corrêa/PR
Imagem: Reprodução/Redes Sociais e Marcos Corrêa/PR
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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

11/12/2020 17h45

A lógica aplicada pelo governo à gestão da crise sanitária tem cara de lógica, rabo de lógica, rugido de lógica... Mas é o mais puro e cristalino absurdo. Um mês e meio depois de rasgar, por ordem de Bolsonaro, protocolo que firmara com o Instituto Butantan para aquisição de 46 milhões de doses da CoronaVac, o Ministério da Saúde prepara a edição de medida provisória que autoriza o governo a "requisitar" todas as vacinas contra a Covid-19 produzidas no país ou importadas.

A notícia sobre a MP da requisição —eufemismo para confisco— foi repassada em primeira mão pelo general Eduardo Pazuello, suposto ministro da Saúde, ao governador goiano Ronaldo Caiado, que borrifou a novidade no Twitter. Numa alusão ao governador de São Paulo, João Doria, Caiado espetou: "Nenhum estado vai fazer politicagem e escolher quem vai viver ou morrer de Covid."

Em reação, Doria disse que Caiado incorporou a "insanidade de Bolsonaro." No Twitter, o governador paulista anotou que "a União demonstra dose de insanidade ao propor uma medida provisória que prevê o confisco de vacinas." Num prenúncio de que planeja judicializar a guerra da vacina, tratou a ideia como "um ataque ao federalismo". Disse que deseja "salvar vidas, não interesses políticos."

Depois de humilhar o general Pazuello, o capitão Bolsonaro avisou que não compraria a "vacina chinesa do Doria" nem mesmo se ela fosse certificada pela Anvisa. Na última terça-feira, em reunião com os governadores, o hipotético ministro da Saúde admitiu adquirir a CoronaVac, mas só "se houver demanda".

Agora, o Planalto se prepara para levar à vitrine uma MP para confiscar as doses de vacina que refugou há um mês e meio. Por quê? Simples: pesquisas de opinião encomendadas pelo Planalto sinalizam que o descaso do governo com a imunização da população brasileira tem potencial para carbonizar a imagem de Bolsonaro.

O Butantan deflagrou a produção da vacina. O instituto trabalhará de domingo a domingo. Doria exibiu um plano estadual de vacinação. Marcou para 25 de janeiro o início do processo. Na reunião com os governadores, Pazuello aconselhou o desafeto de Bolsonaro a conter a ansiedade. Disse que a liberação da Anvisa consumiria pelo menos 60 dias. Grossa tolice.

Alertado para o fato de que dissera bobagem, Pazuello pôs-se a correr atrás da vacina da Pfizer, que a pasta da Saúde havia descartado. Súbito, o general anunciou que a imunização pode começar já em dezembro. Pazuello foi instantaneamente desmentido pelo fabricante. Como demorou a entrar na fila, o Brasil não terá doses da vacina da Pfizer antes de janeiro —assim mesmo em quantidade ínfima.

Ficou entendido que o Ministério da Saúde está num mato sem vacina, sem seringas e sem bom senso. Sobram cloroquina e insensatez. Daí a ameaça de confiscar a "vacina chinesa" do Butantan, maior fornecedor voluntário do Programa Nacional de Imunização, avacalhado pelo governo depois de funcionar exemplarmente por 47 anos.

Mal comparando, a lógica que guia o governo na crise sanitária é mais ou menos como a cachaça. Se utilizada em grandes quantidades, provoca um zigue-zague incompreensível. A essa altura, o confisco de vacinas seria a irracionalidade levada às fronteiras do paroxismo.