PUBLICIDADE
Topo

Josias de Souza

Aturdido, Bolsonaro confunde jacaré com tronco

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

26/01/2021 18h32

Afundando nas pesquisas, Jair Bolsonaro debate-se na correnteza da pandemia como um náufrago desfigurado. Refere-se à China com respeito e compostura. Orgulha-se de ter autorizado a compra da vacina chinesa. Defende a imunização em massa para dar "conforto à população" e segurança à economia. Ou seja: o capitão está completamente fora de si.

Costumava tratar a embaixada da China aos pontapés. Agora, vai às redes sociais para agradecer ao embaixador Yang Wanming, desafeto do seu filho Zero Três, por ter avisado que Pequim liberou "a exportação dos 5.400 litros de insumos para a vacina CoronaVac".

Já não chama a "vachina" de "vacina chinesa do João Doria". Virou "vacina do Brasil." Jurou que jamais compraria o imunizante, mesmo que a Anvisa aprovasse. Hoje, soa como um ex-Bolsonaro: "Sempre disse que qualquer vacina, uma vez aprovada pela Anvisa, seria comprada pelo governo federal."

Até ontem, queria que os vacinados assinassem um termo isentando o governo de responsabilidade caso virassem jacaré. Ainda não entrou na fila da vacinação. Mas já enxerga nos imunizantes uma fonte de "conforto", uma fagulha capaz de reacender as fornalhas da economia.

Este neo-Bolsonaro faz lembrar a célebre frase de José Ortega y Gasset, filósofo que, no século passado, testemunhou a transfiguração radical das circunstâncias na sua Espanha natal. O cenário mudou da monarquia para a República. E desta para a ditadura.

"Yo soy yo y mi circunstancia y si non la salvo a ella no me salvo yo." Políticos costumam evocar a primeira parte da frase para justificar mudanças bruscas de posição. No caso de Bolsonaro, entretanto, a segunda parte do enunciado de Gasset é mais relevante.

O que o filósofo espanhol quis dizer foi mais ou menos o seguinte: quando é intimado pelas circunstâncias a resolver uma questão crucial, o sujeito deve posicionar-se de modo a solucionar a encrenca, pois só assim, salvando a situação, é que conseguirá salvar a si mesmo.

No português do asfalto, a mensagem do filósofo seria traduzida assim: para salvar a própria pele, mande às favas a coerência e vire-se como puder. Bolsonaro virou-se do avesso. Aturdido com a perda de popularidade, agarra-se ao jacaré imaginando que é um tronco.

Difícil saber quanto tempo durará a hipotética conversão às vacinas. Quando está fora de si, Bolsonaro não consegue esconder por muito tempo o que tem por dentro.