PUBLICIDADE
Topo

Josias de Souza

Vacina indiana deixa enredo sanitário de Bolsonaro malcheiroso e desconexo

Divulgação
Imagem: Divulgação
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

17/06/2021 18h19

Até aqui, a CPI da Covid operou em modo auditivo. Limitou-se a seguir o rastro de provas que Bolsonaro produziu contra si mesmo com as declarações que fez ao longo da crise sanitária. O presidente se expressou como se cultivasse o desejo secreto de ser apanhado. Agora, a CPI começa a combinar a audição com o olfato. Ao sentir que algo cheira mal, a comissão vai atrás.

Combinando os sons emitidos pelo presidente com o odor que escapa de um contrato assinado pelo Ministério da Saúde, a CPI chegou a um alvo incômodo para o governo. Chama-se Covaxin. Nada a ver com o consórcio Covax Facility, da OMS. Trata-se de uma vacina indiana contra a covid.

Numa fase em que inventava efeitos colaterais inexistentes para retardar a compra da vacina da Pfizer, Bolsonaro autorizou o Ministério da Saúde a investir R$ 1,614 bilhão na aquisição de 20 milhões de doses da Covaxin. O contrato foi assinado em fevereiro, quando a vacina ainda não tinha o aval da Anvisa. Pior: a Covaxin não havia nem passado pela terceira fase de testes na Índia.

Cobiçada no mundo inteiro, a vacina da Pfizer era tratada por Bolsonaro como imunizante que fazia virar jacaré. Observada com reservas até na Índia, seu país de origem, a Covaxin mereceu do governo brasileiro o tapete vermelho.

O governo levou 97 dias para negociar e adquirir um lote da vacina Covaxin. Com a Pfizer, a embromação que antecedeu a primeira compra consumiu 330 dias.

Documentos enviados à CPI pelo Itamaraty e expostos pelo Globo revelam que a embaixada do Brasil em Nova Déli, a capital indiana, alertou Brasília sobre as dúvidas que cercavam a Covaxin.

Os alertas foram ignorados. E o negócio foi fechado à revelia da Anvisa, que àquela altura não podia se pronunciar sobre a eficácia de uma vacina com os testes ainda inconclusos.

Chama-se Bharat Biotech o laboratório que produz a Covaxin na Índia. É representado no Brasil pela Precisa Medicamentos.

Responsável pela negociação com a pasta da Saúde, a Precisa é investigada pelo Ministério Público no Distrito Federal por suspeita de fraude na venda de testes anti-covid para o governo de Brasília. Negócio de R$ 21 milhões. O presidente da Precisa, Francisco Maximiano, será ouvido pela CPI na quarta-feira da semana que vem.

Um detalhe potencializa o fedor: a Covaxin foi a vacina mais cara que o Brasil comprou. Cada dose saiu a R$ 80,70. Isso equivale a quatro vezes o preço da vacina Oxford-AstraZeneca. O Brasil ainda não recebeu nenhuma dose de Covaxin. Ou seja, Bolsonaro implicou com jacaré e engoliu elefante indiano.