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Josias de Souza

Terra conduziu Bolsonaro para o Mundo da Lua

22.jun.2021 - O deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) presta depoimento à CPI da Covid - Edilson Rodrigues/Agência Senado
22.jun.2021 - O deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) presta depoimento à CPI da Covid Imagem: Edilson Rodrigues/Agência Senado
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

22/06/2021 15h55

Não se deve julgar ninguém pelas aparências. O depoimento do deputado Osmar Terra à CPI da Covid revela que as coisas nem sempre são tão ruins quanto parecem. Elas podem ser bem piores. Confirmou-se a impressão de que foram as teses de Terra que transportaram Bolsonaro durante a pandemia para o Mundo da Lua. E ficou claro por que o presidente demora a colocar os pés no chão.

Costuma-se dizer que Terra fez previsões erradas sobre a pandemia. Engano. O deputado fez afirmações categóricas, não suposições. Exibiram-se vídeos com as tolices ditas pelo personagem ao longo da crise sanitária. Submetido a uma espécie de acareação consigo mesmo, o deputado perdeu o nexo. Mas não deu o braço a torcer.

Num instante, Terra admitiu ter exagerado no otimismo. Noutro momento, reafirmou seu negacionismo com uma ponta de orgulho. No geral, manteve de pé as falsidades que norteiam as posições de Bolsonaro.

O depoente tachou de "inútil" as medidas restritivas usadas por governadores e prefeitos para regular a fila das UTIs. Justificou a inação de Bolsonaro repetindo a versão mentirosa de que o Supremo amarrou as mãos do presidente.

Terra como que enalteceu a imunidade obtida por meio da infecção, ressaltando que o vírus fornece mais proteção do que a vacina. Deu de ombros para o fato de que o vírus também propicia mortes e sequelas.

Nos vídeos exibidos na CPI, Bolsonaro surgiu como ator coadjuvante, ecoando o negacionismo do amigo. A justaposição dos comentários converteu o presidente da República numa espécie de boneco de ventríloquo do deputado.

Em março de 2020, quando o coronavírus produzia as primeiras mortes no Brasil, Terra dizia que morreriam menos de mil pessoas. Declarava coisas assim: "A Gripe suína, H1N1, matou duas pessoas a cada dia no Brasil em 2019. Este número, deve ser maior que as mortes que acontecerão pelo coronavírus aqui. E não se parou o país nem se destruiu a economia, como está acontecendo agora. É o fato e a versão do fato."

Em abril do ano passado, Terra declarou que o pico do contágio do coronavírus seria atingido em "no máximo duas semanas, até menos". À medida que o número de casos ia crescendo, o deputado esticava o calendário. Nos lábios de Terra, o ocaso da pandemia estava sempre na virada da próxima esquina. Final de abril, início de maio, alvorecer de junho...

Categórico, Terra disse que a pandemia acabaria "sem a vacina." A imunização do rebanho nacional seria alcançada por meio da exposição dos brasileiros ao vírus. Tratou como invenção o agravamento da crise que levaria à morte por falta de oxigênio no Amazonas. Disse que não haveria variantes do vírus. Agora, atribui seus próprios erros ao surgimento da P1, a nova cepa de Manaus.

O negacionismo de Osmar Terra não é coisa do passado. Exibiu-se imagem de dezembro de 2020 na qual ele soa assim: "É bem provável que em algumas semanas cheguemos à imunidade coletiva, ou imunidade de rebanho, e o surto epidêmico termine". Nada de vacinas. O vírus se encarregaria de prover a "imunidade natural" dos brasileiros.

Em fevereiro deste ano de 2021, Terra reafirmou que a saída da pandemia não estava na vacinação. Chamou a defesa das vacinas de "desinformação com objetivo de assustar as pessoas". Sob influência das lorotas de gente como Terra, Bolsonaro administrou a pandemia operando com duas verdades: a deles e a verdadeira.

No Mundo da Lua, a pandemia era uma "gripezinha" que estava no "finzinho". E e segunda onda não passava de "conversinha". No universo real, a pandemia já matou mais de meio milhão de pessoas, o vírus surfa a terceira onda e a vacinação é interrompida em várias capitais por falta de vacinas.

Na abertura do seu depoimento à CPI, Osmar Terra declarou: "Eu sei que vão mostrar um monte de vídeos meus falando das previsões. Eu já quero antecipar aqui dizendo para vocês que as previsões que eu fiz foram baseadas não num estudo matemático apocalíptico, como foi o do Imperial College, mas nos fatos que existiam na época, em março."

Confrontado com suas batatadas, esquivou-se: "Aquelas previsões ali, senador, são baseadas no que eu disse antes. E são minhas conclusões, são conclusões pessoais. São baseadas na China: quem diria que a China, com 1 bilhão e 400 milhões de habitantes, tivesse 4 mil mortes até hoje? Diante desses dados, que eram os únicos que tínhamos na época, me permitiu ser otimista."

Suprema ironia: num depoimento em que desancou a política do "fique em casa", Osmar Terra escorou sua irresponsabilidade sanitária no êxito da China. Logo a China, que se serviu da mão forte do regime ditatorial para trancar a metrópole de Wuhan em casa pelo tempo que foi necessário. Na raiz do negacionismo que inspira Bolsonaro, quem diria, está um êxito comunista.