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Josias de Souza

Caso Covaxin pode virar rachadona de Bolsonaro

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

24/06/2021 04h07

A suspeita de corrupção na compra da vacina indiana Covaxin abriu uma fenda no casco do governo Bolsonaro. A julgar pelas primeiras reações do Planalto, o caso tem potencial para virar uma espécie de rachadona do capitão. O presidente tem dificuldades para lidar com adversários inusuais.

A denúncia não partiu de um inimigo "comunista" ou de um "vagabundo" da CPI. A encrenca ganhou as manchetes graças a um servidor concursado do Ministério da Saúde, Luis Ricardo Fernandes Miranda, e o irmão dele, o deputado bolsonarista Luis Miranda (DEM-DF), um ex-youtuber processado sob a acusação de aplicar golpes financeiros em investidores incautos. A dupla queria ajudar Bolsonaro.

Recebidos no Alvorada, os irmãos Miranda forneceram ao presidente informações sobre uma tempestade que se armava na pasta da Saúde, ainda submetida à ocupação militar comandada pelo general Eduardo Pazuello. Se o caso fosse um filme, seria muito fácil resumir o enredo.

Bastaria dizer que o filme é sobre uma embarcação temerária, uma tripulação alienada e uma imensa pedra de gelo. Tudo muito parecido com Titanic. Os Miranda não imaginavam que, informado sobre o risco de naufrágio, Bolsonaro ordenaria à orquestra do transatlântico que continuasse tocando.

Nesta quarta-feira, com água pela cintura e a CPI no seu encalço, Bolsonaro ordenou ao ministro palaciano Onyx Lorenzoni (Secretaria-Geral) que levasse a boca ao trombone contra os irmãos Miranda. Meia hora antes, o capitão limpou o convés do governo, jogando ao mar seu ministro predileto: Ricardo Salles (Meio Ambiente).

Na parte em que distribuiu as bordoadas encomendadas pelo chefe, Onyx disse coisas definitivas sobre a decisão de intimidar os irmãos Miranda colocando na cola deles o braço repressor do Estado, incluindo a PF. Mas o ministro não definiu muito bem as coisas ao tentar desmentir as manchetes sobre o escândalo. Deixou a sala de entrevistas do Planalto sem responder a uma mísera pergunta.

Coube ao deputado Luis Miranda pedir a Bolsonaro que recebesse o servidor Luis Ricardo. Os portões do palácio residencial se abriram para a dupla no último dia 20 de março. Conversaram com o presidente na biblioteca do Alvorada. Foi um diálogo difícil, mas amistoso. O servidor posou para fotos ao lado do capitão.

Luis Ricardo relatou a Bolsonaro as pressões que sofria dos militares da Saúde para apressar a compra da Covaxin —a vacina mais cara da praça e uma das menos valorizadas pela Anvisa. Negócio de R$ 1,6 bilhão, intermediado pela Precisa Medicamentos, uma empresa dura de roer, com histórico de irregularidades.

O servidor contou ao presidente que se recusara a assinar um documento com cara de negociata. Seu jamegão liberaria um pagamento antecipado: US$ 45 milhões, o equivalente a R$ 222 milhões. Coisa de deixar no chinelo as rachadinhas operadas pelo primeiro-amigo Fabrício Queiroz.

A verba cobriria o primeiro lote de um total de 20 milhões de doses de vacina. O documento mencionava 300 mil doses. O contrato anotava 4 milhões de frascos. E não mencionava pagamento antecipado.

A nota fiscal esgrimida por Luis Ricardo previa que o dinheiro deveria ser enviado para uma conta em Cingapura, pertencente a uma logomarca estranha ao contrato. Um detalhe injetava escárnio no absurdo: as vacinas estavam na bica de perder o prazo de validade.

Apresentado ao acinte, Bolsonaro informou aos interlocutores que acionaria o "DG", como costuma se referir ao diretor-geral da Polícia Federal, à época o delegado Rolando de Souza. Os Miranda não tiveram mais notícia de Bolsonaro. O tempo passou. Pazuello tornou-se ex-ministro. E a vacina Covaxin virou escândalo.

Luis Ricardo repetiu em depoimento à Procuradoria da República no Distrito Federal o enredo de naufrágio que repassara a Bolsonaro. Seu depoimento caiu no colo dos senadores do G7, o grupo majoritário da CPI. Juntou-se a uma auditoria em que o Tribunal de Contas da União aponta a aparência malcheirosa do caso Covaxin.

Informado de que o irmão seria convocado a depor na CPI, o deputado Luis Miranda se ofereceu à cúpula da comissão para abrir o bico junto com ele. Ambos falarão nesta sexta-feira (25). De repente, a CPI mudou de patamar. Investigava o negacionismo do governo. Bateu num caso de negocismo.

Descobriu-se que o governo do presidente que tem ojeriza a vacinas apaixonou-se pela indiana Covaxin. E teria sido plenamente correspondido, não fosse o comportamento de estraga-festas do servidor Luis Ricardo.

A conjuntura ganhou novos contornos. Verificou-se que a Pfizer e o Butantan enviaram dezenas de memorandos e e-mails, marcaram hora, amargaram chás de cadeira e deram com a cara na porta várias vezes antes de assinar contratos com a Saúde. A Covaxin, ao contrário, pegou o atalho, percorreu o tapete vermelho, subiu pelo elevador privativo e encontrou as portas escancaradas.

O que Bolsonaro tenta fazer em reação ao escândalo é o que deixou de fazer por convicção, compromisso ou precaução quando aceitou receber os Miranda no Alvorada. "O governo vai continuar, sim, sem corrupção", vociferou Onyx, antes de rosnar para o deputado bolsonarista, seu correligionário no DEM.

"Deputado Luis Miranda, o senhor vai pagar pela irresponsabilidade, pelo mau-caratismo, pela má-fé e pela produção de provas falsas."

Não é que o papelório brandido pelos Miranda seja falso. A questão é que a equipe de Pazuello se reposicionou em cena. Entre 20 de março, dia em que os irmãos estiveram com Bolsonaro no Alvorada, e 23 de março, a Saúde providenciou a troca do documento que falava em pagamento antecipado por 300 mil doses por outro que mencionava 3 milhões de doses, com desembolso após a entrega.

As vacinas não chegaram. Mas o governo emitiu há três meses a nota de empenho que reserva R$ 1,6 bilhão para pagar pela vacina mais cara da praça, ainda sem liberação da Anvisa. Ou Bolsonaro exibe algo mais além de destempero ou a água logo recobrirá os instrumentos de sua orquestra.

O capitão talvez não sofra impeachment quando soar o "glub, glub, glub..." Mas o preço da blindagem do centrão já está pela hora da morte.