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Josias de Souza

CPI expõe naufrágio, mas centrão mantém Bolsonaro como maestro do Titanic

Foto: Sérgio Lima/AFP
Imagem: Foto: Sérgio Lima/AFP
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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

17/10/2021 05h49

Mal comparando, o relatório final da CPI da Covid se assemelha ao enredo de um filme trágico. O conteúdo virá à luz nos próximos dias. A sinopse, entretanto, já é bem conhecida. Relata a história de uma embarcação temerária, uma tripulação alienada e uma imensa pedra de gelo. Tudo muito parecido com Titanic. Ninguém ignora o final. Mas a orquestra do centrão ajusta o repertório, conferindo a Bolsonaro a aparência de maestro de um transatlântico a caminho das profundezas.

A pandemia compõe o pano de fundo como uma tempestade incontornável. Sabia-se desde o início que haveria muitas mortes. O mérito da investigação parlamentar foi o de reunir evidências de que a tragédia foi magnificada por uma estratégia errática. Nela, misturaram-se o negacionismo, a aposta na cloroquina, a crença na imunização de rebanho e a demora na aquisição de vacinas. Sonegaram-se deliberadamente botes salva-vidas a muitos dos mais de 600 mil mortos.

O iceberg tem contornos econômicos. Bolsonaro foi o primeiro a se dar conta dos riscos no alvorecer da pandemia. Em março do ano passado, ele dizia: "Se a economia afundar, afunda o Brasil. E qual o interesse dessas lideranças políticas? Se acabar a economia, acaba qualquer governo. Acaba o meu governo. É uma luta de poder." Com água pela cintura, o presidente não enxergava o vírus. Ele só tinha olhos para a reeleição. Político que não ambiciona o poder vira alvo. Político que só ambiciona o poder erra o alvo.

A orquestra desliza pelo convés. A água entra nos trombones. Agarrados aos instrumentos, os músicos do centrão permanecem nos seus postos. Não ignoram a dramaticidade do momento. Mas o solista Arthur Lira distribui nacos do orçamento secreto. Financiadas pelo déficit público, nem uma nota soa fora do lugar. O relatório da CPI exibe tubarões entrando pelas escotilhas. As previsões econômicas para 2022 indicam que as caldeiras estão explodindo. E o maestro, com água pelo pescoço, sacode a batuta em meio a um fundo musical marcado pelo tilintar de verbas.

Augusto Aras, o procurador-geral que nunca acha, observa a cena como um espectador embevecido. Embora também não desconheça a gravidade do momento, comporta-se como se atribuísse o desnível acentuado do chão à qualidade do champanhe. Os membros da CPI esperam que Aras diga alguma coisa quando receber as conclusões da investigação. Pode-se antever as últimas palavras do chefe do Ministério Público Federal: "Glub, glub, glub."