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Josias de Souza

Lira não é o melhor patrono para reforma do MP

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

21/10/2021 11h14

Depois de dois adiamentos, Arthur Lira, o réu que preside a Câmara, fez as contas e decidiu levar a voto a emenda constitucional que aumenta a influência política do Congresso no Conselho Nacional do Ministério Público. Para prevalecer, Lira precisava dos votos de 308 deputados. Obteve 297. Faltaram 11 míseros votos.

Um derrotado convencional reconheceria que o jogo está jogado. Mas Lira, inconformado com os traidores que fizeram sua conta desandar, ameaça reiniciar a partida. "O jogo só termina quando acaba", disse o derrotado, ao deixar o campo.

Lira declarou que dispõe de "possibilidades regimentais". Avisou que fará uma "análise política". Sinaliza a intenção de levar a voto a versão original da emenda rejeitada, sem os ajustes que suavizaram o texto.

Com mais de 130 pedidos de impeachment guardados na gaveta e às voltas com a articulação de uma gambiarra fiscal capaz de colocar em pé o novo Bolsa Família de R$ 400, Lira dá prioridade à satisfação de um desejo pessoal. Não abre mão de avançar sobre o conselho do Ministério Público que o importunou em inúmeras investigações.

Há muita coisa a ser aperfeiçoada no Ministério Público. Mas uma reforma feita a toque de caixa, tendo Arthur Lira como reformador sênior, não serve senão para demonstrar que o Legislativo brasileiro vive uma fase de faltas e de excessos. Falta de prioridade, falta de compromisso público, falta de vergonha na cara... Excesso de manobras, excesso de patrimonialismo, excesso de cinismo.