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Josias de Souza

Filiação de Bolsonaro ao PL leva centrão à Presidência, agora sem a máscara

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

24/11/2021 08h47

Marcada para a próxima terça-feira, dia 30 de novembro, a filiação de Bolsonaro ao PL de Valdemar Costa Neto, ex-presidiário do mensalão, representa um marco na política brasileira. Pela primeira vez na história, um partido do centrão ocupará formalmente a Presidência da República. Embora carregasse o centrão enterrado na alma, Bolsonaro prevaleceu em 2018 chamando o grupo de "escória da política brasileira". Era teatro. Agora, a escória assume o trono sem máscara.

O centrão surgiu no Congresso há 33 anos, durante a Constituinte de 1988, sob o lema "é dando que se recebe". Retirado da oração de São Francisco, o mantra lançado pelo então deputado Roberto Cardoso Alves passou a simbolizar a prática profana de exigir vantagens —lícitas e, sobretudo, ilícitas— em troca de apoio político aos governos no Legislativo. Debatia-se a prorrogação para cinco anos do mandato de Sarney, o presidente da época. Foi dando que Sarney recebeu.

O PL será o nono partido de Bolsonaro. Será um casamento de conveniência. Bolsonaro ganha tempo de propaganda na TV e dinheiro para disputar a reeleição. Valdemar espera engordar sua bancada federal dos atuais 43 deputados para pelo menos 65, aumentando seu faturamento com os fundos partidário e eleitoral. Embalado pela mesma perspectiva, outro partido do centão, o PP de Ciro Nogueira e Arthur Lira, cogita indicar o vice na chapa de Bolsonaro. Nessa equação, pouca importa se Bolsonaro será ou não reeleito. Com bancadas reforçadas, PL e PP continuarão dando as cartas em 2023.

O centrão, que sempre foi força subalterna, disputará o Planalto pela primeira vez —com uma chapa puro sangue. As coisas mudam sem sair do lugar. Sob Lula, a legenda de Valdemar estrelou o escândalo do mensalão. Sob Dilma, o partido de Ciro e Lira enrolou-se no petrolão. Sob Bolsonaro, o centrão tomou de assalto o Planalto e o pedaço secreto do orçamento federal. Parte do eleitorado gostaria de obter nas urnas de 2022 uma alteração do status quo. O centrão aceita modificar o status, desde que não mexam no seu quo.