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Josias de Souza

Para atrair voto da direita, Moro encarna o bolsonarismo sem Bolsonaro

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

26/11/2021 10h43

A filiação do general Carlos Alberto Santos Cruz ao Podemos reforça a estratégia de Sergio Moro de converter sua candidatura presidencial numa espécie de caravana dos deserdados da gestão Bolsonaro, com a reedição da pauta conservadora de 2018.

Moro já repisou a prioridade anticorrupção, abandonada pelo ex-chefe. Nos últimos dias, mimetizou a agenda liberal que o ex-colega Paulo Guedes não conseguiu implantar. Agora, gruda sua imagem na de militares que Bolsonaro expurgou da equipe auxiliares palacianos.

Horas depois de discursar na cerimonia de filiação de Santos Cruz, Moro publicou nas redes sociais uma foto ao lado de outro general desprezado por Bolsonaro: o ex-porta-voz da Presidência Otávio Rego Barros. Anotou que o tema da conversa foi a "transparência nas contas públicas."

Além de afagar as Forças Armadas, o ex-juiz tenta sinalizar para o eleitorado de direita e de extrema-direita que representará na sucessão de 2022 a agenda que foi eleita em 2018. É como se Moro quisesse encarnar uma espécie de bolsonarismo sem Bolsonaro.

Os planos do ex-juiz incluem a intenção de atrair o ex-ministro Henrique Mandetta, com quem conversa amiúde. O próprio Mandetta aconselhou aos correligionários do Aliança Brasil, partido que nasce da cruza do DEM com o PSL, que incluam nas suas reflexões a possibilidade de compor a coligação de Moro. Amigos de Mandetta suspeitam que ele gostaria de ser vice na chapa de Moro.

Ao dar as boas-vindas a Santos Cruz no Podemos, Moro cometeu um ato falho. Enalteceu o caráter do general por ter deixado o governo assim que percebeu que "o objetivo era atender a interesses pessoais" do presidente, e não melhorar o país.

Santos Cruz não pediu demissão. Foi demitido em meio a uma intriga criada por Carlos Bolsonaro. Saiu seis meses depois do início do governo. Moro demorou muito mais para perceber que embarcara em canoa furada. Só pediu demissão em abril deste ano.

Nessa época, o ex-todo poderoso da Lava Jato já havia ganhado uma aparência de atração turística em Brasília. Perdera o Coaf. Amargara o desprezo de Bolsonaro pelo seu pacote anticrime. Tudo isso e mais a convivência com uma família com a imagem bem rachadinha converteram Moro numa versão brasiliense da Vênus de Milo.

Muitos se perguntam por que o ex-juiz entrou no governo. Outros questionam por que não saiu antes que lhe cortassem os braços. Que dizer: além de atrair ex-auxiliares de Bolsonaro e de resgatar sua agenda perdida, Moro terá de providenciar um lote de explicações para as perguntas que terá de responder ao longo da campanha.