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Josias de Souza

Cúpula do tucanato duvida que João Doria voe

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

28/11/2021 05h37

Com atraso de uma semana, João Doria prevaleceu nas prévias do PSDB. Levou um partido desunido e desorientado. Discursou no encerramento da disputa interna como um presidenciável da terceira via. Mas a cúpula do ninho duvida que a candidatura de Doria voe. Avalia-se que, no momento, ele corre o risco de ser jogado no acostamento por Sergio Moro.

As primeiras manifestações de Doria como candidato foram, por assim dizer, corroídas pela ferrugem do tucanato e pela radioatividade que Bolsonaro transmite à bancada federal do PSDB.

"Os governos Lula e Dilma representaram a captura do Estado pelo maior esquema de corrupção do qual se tem notícia no país", declarou Doria. "Bolsonaro vendeu um sonho e entregou um pesadelo. Nosso fraterno Brasil se transformou no Brasil da discórdia, da desunião, do conflito, da briga entre familiares e amigos, da arrogância política."

Cinco grão-tucanos foram encrencados em casos de corrupção: Eduardo Azeredo, que chegou a puxar cadeia, Aécio Neves, Beto Richa, José Serra e Geraldo Alckmin. A exemplo do petismo, o tucanato peitou as investigações e blindou os seus encrencados.

Em 2018, Doria chegou ao Palácio dos Bandeirantes cavalgando o híbrido "Bolsodoria". Hoje, metade da bancada de deputados do partido vota com o governo do capitão na Câmara.

Infiltraram-se na rotina do PSDB a "discórdia", a "desunião", o "conflito", a "briga" e a "arrogância política". Alckmin chama Doria de "traidor" e prepara o desembarque com seu grupo. Parte da bancada de deputados cogita sair pela janela que está prestes a se abrir para o troca-troca partidário. Aécio planeja ficar, para exercer em Minas Gerais, segundo colégio eleitoral do país, o papel de quinta-coluna.

Em privado, compartilham do ceticismo em relação à candidatura de Doria personagens como Fernando Henrique Cardoso e Bruno Araújo, respectivamente presidente de honra e presidente do PSDB.

Não é que os tucanos avaliem mal o desempenho de Doria no governo de São Paulo. Ao contrário, elogiam o desempenho econômico do Estado. Enaltecem a decisão de Doria de investir na compra da vacina CoronaVac no alvorecer da pandemia. Até por isso, declaram-se impressionados com a inanição do candidato nas pesquisas.

O tucanato receia que o "perfil elitista" de Doria afugente o eleitorado. Acreditam que os frequentes embates com Bolsonaro fizeram do governador parte de um contencioso do qual o brasileiro deseja se livrar. Daí a dificuldade de voar.

Uma ala do tucanato defende que, na hipótese de aparecer um candidato ao Planalto com potencial para unir o centro, o PSDB deve apoiá-lo, mesmo que não pertença ao partido. Os correligionários de Eduardo Leite, vencido nas prévias, acham que ele teria mais jogo de cintura para eventuais composições.

Há seis meses, Fernando Henrique eriçou as plumas de alguns tucanos ao declarar que não exclui a hipótese de votar em Lula caso a polarização com Bolsonaro sobreviva até o segundo turno.

"Quero uma terceira via", disse FHC. "Vou lutar para que haja um candidato. Se for do PSDB, bom. Se não for, também não tem importância. Mas vou votar contra Bolsonaro".