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OPINIÃO

Com as bochechas carbonizadas, Bolsonaro continua brincando à beira do fogo

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Josias de Souza

Colunista do UOL

24/06/2022 09h18

Em tempos de São João, Bolsonaro continua brincando na beirada da fogueira. Com as bochechas carbonizadas, disse ter exagerado quando declarou, há três meses, que colocaria "a cara no fogo" por Milton Ribeiro. Mas afirmou que ainda põe "a mão no fogo" pelo ex-ministro da Educação, que se encontra bem passado na frigideira de uma investigação criminal em que a Polícia Federal aponta indícios de propinas. O inquérito anota que Ribeiro "conferia o prestígio da administração pública à atuação dos pastores Gilmar Silva dos Santos e Arilton Moura", a dupla que pastoreava verbas públicas no Ministério da Educação.

Na administração pública, as queimaduras podem ser de primeiro, de segundo ou de terceiro escalão. Bolsonaro apresenta reações epidérmicas de terceiro grau desde que solicitou ao então ministro Milton Ribeiro que abrisse as portas que conduziram pastores de sua predileção ao FNDE, um cofre de terceiro escalão fornido com mais de R$ 50 bilhões e gerido pelo centrão. O presidente não é alvo da investigação que corre na primeira instância. Mas a gravação em que o então ministro atribuiu a Bolsonaro o envio dos pastores ao MEC continua ressoando como um prenúncio do que está por vir caso o projeto de reeleição naufrague.

É graças ao áudio tóxico do ex-ministro que Bolsonaro mede as palavras ao se referir a Milton Ribeiro. No dia da prisão, tomou distância: "Ele que responda", mordeu, antes de enaltecer a ação da Polícia Federal como uma suposta evidência de que não interfere no órgão. "Se prendeu, tem motivo." Abertas as celas, Bolsonaro soprou: "Nem devia ter sido preso". A prisão preventiva passou a ser uma "maldade".

A decisão do TRF-1 que levou à libertação dos presos é monocrática e provisória. Terá de ser analisada por uma turma composta por três desembargadores. A discussão não envolve o mérito do processo, que está apinhado de indícios de crimes. Discute-se apenas se os acusados deveriam ou não permanecer presos para não prejudicar a produção de provas.

De resto, o bumbo da alegada independência da PF foi silenciado por uma carta do delegado responsável pelo caso, Bruno Calandrini. Ele diz que "houve interferência" na investigação, sustenta que o ex-ministro "foi tratado com honrarias não existentes na lei" e lamenta não dispor de "autonomia investigativa para conduzir o inquérito com independência e segurança institucional." Surgiu um escândalo dentro do outro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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Josias de Souza