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Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Paulo Guedes assiste à superpedalada de Bolsonaro quieto como um neandertal

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

03/07/2022 05h49

Vivo, Darwin diria que Paulo Guedes é uma evidência de que o homem parou de evoluir. Quando era apenas um neandertal, o hominídeo dispunha de uma caixa craniana maior. Mas não tinha a linguagem dos economistas, embora o grunhido às vezes fosse parecido. Vivia em comunidades semelhantes às atuais, só que sem a selvageria do centrão.

O objetivo da evolução era dar voz à humanidade, nome às coisas e um enredo para o universo. A conjuntura intima Paulo Guedes a dizer meia dúzia de palavras. A superpedalada que Bolsonaro executa para tentar chegar ao segundo turno da disputa presidencial faz de Dilma uma espécie de condutora de velocípede. Suposto guardião do Tesouro, Guedes assiste à explosão das arcas em silêncio.

Aprovou-se no Senado uma proposta de emenda constitucional que, em fevereiro, quando ainda tinha língua, Guedes chamou de "kamikaze". Embora sugestivo, o nome é impróprio. O piloto kamikaze mergulhava com seu avião sobre alvos inimigos. Os pilotos do comitê da reeleição afundam seu próprio país, suicidando as contas nacionais, a lei de responsabilidade fiscal e a legislação eleitoral.

Uma emenda de última hora piorou o soneto, adicionando um vale-taxista ao embrulho populista que já incluía o Pix caminhoneiro, a elevação do Auxílio Brasil e o reforço do vale-gás. Na versão de fevereiro, o socorro aos pobres seria pago com os dividendos que a Petrobras repassa ao governo, seu acionista majoritário. No formato atual, um estado de emergência ficcional espetou a conta na herança maldita de Bolsonaro.

Em janeiro de 2019, Paulo Guedes chegou a Brasília como uma figura de loquacidade esfuziante. Já no discurso de estreia, disse tudo ao denunciar as "criaturas do pântano político, piratas privados e burocratas corruptos, associados na pilhagem do Estado". Desde então, o ministro se comporta como menino que brinca no lodo depois do banho. Diz uma coisa de manhã e o contrário à tarde.

Decorridos três anos e meio, a comunhão de Bolsonaro com as criaturas do centrão arrastou o liberalismo de Guedes para o pântano. A oligarquia patrimonialista não está preocupada com as limitações fiscais nem com os pobres. As raposas do centrão querem apenas lubrificantes eleitorais e votos.

Sócio da ruína, Bolsonaro convenceu-se de que os aditivos impedirão uma hipotética virória de Lula no primeiro turno. A prioridade do centrão é impulsionar seus candidatos ao Congresso. Se não estivesse com a chave do cofre, o centrão não daria a Bolsonaro nem bom dia, que dirá apoio. A prioridade do grupo é aumentar suas bancadas. A participação dos partidos no rateio das verbas públicas dos fundos partidário e eleitoral aumenta quanto maior for o número de deputados.

Paulo Guedes já teve várias oportunidades para chamar o caminhão de mudança. Mas foi ficando. Um observador desatendo diria que o ministro construiu seu próprio caminho para o inferno. Darwin talvez concluísse que o doutor de Chicago não só parou de evoluir como já faz o caminho de volta.

Se soubesse que a coisa daria no que está dando, o hominídeo não teria saído da caverna. Espera-se que Paulo Guedes recupere a fala antes de retornar à sua forma :neandertal. Nem que seja para dizer apenas uma e derradeira palavra: "Fim". Ou: "Fui". Ou ainda: "Danem-se".