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Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Último desejo de Jô: "Dá mais uma sacudidinha"

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

05/08/2022 09h23

Tive o privilégio de conversar algumas vezes com Jô Soares ao longo da minha vida profissional. Estive no seu programa de entrevistas. Ele pediu autorização para telefonar de vez em quando, como se fosse necessário. Ligava para elogiar ou criticar artigos e reportagens. Numa dessas conversas, falávamos sobre a morte de uma personalidade quando Jô me disse, entre risos, que não tinha medo de morrer. O que o assustava era a perspectiva de esquecer de dar uma última ordem para o staff que o assessorava em casa ou no trabalho.

Jô esclareceu que ordenaria a colocação de um cartaz ao lado do seu caixão, ainda aberto, durante o velório. Teria que ser um cartaz grande. Nele, todos leriam uma frase curta, escrita em letras maiúsculas: "Por favor, dê mais uma sacudidinha". Segundo Jô, essa frase derradeira lhe foi soprada pelo escritor Luis Fernando Verissimo. A tentação de dar uma última sacudida no corpanzil de Jô Soares é grande. Num instante em que a conjuntura brasileira é atormentada por tantas nulidades, a morte de uma pessoa como Jô ganha a aparência instantânea de um acontecimento prematuro.

Espaçoso, Jô Soares transbordou do teatro, do cinema e das esquetes televisivas de humor para um programa de entrevistas em que a música e o riso se misturavam a dramas econômicos e políticos do país. A morte cometeu um erro atroz ao calar uma voz necessária em momento tão conturbado.

A melhor definição sobre a genialidade de Jô foi construída por Millôr Fernandes, outro gênio. Millôr publicava anos atrás uma série batizada de "Retratos em 3 X 4 de alguns amigos 6 X 9". Nessa série, o retrato falado de Jô Soares dizia algo assim:

"Exibicionista nato, um dia descobriu que, pondo bilheteria, era muito melhor. Eclético total, o que mais gosta é tudo. Quando morrer, quer um enterro bem simples. Apenas um caixão de pinho, tendo em volta oitocentos bispos vestidos de púrpura, trezentas câmeras filmando, e narração em 17 idiomas. Igualzinho ao papa."

Quem vai a um velório tão indesejado não pode deixar de atender ao último desejo do protagonista da cena. É imperioso dar "mais uma sacudidinha".