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Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Cessar-fogo prioritário para a gestão Lula está na Amazônia, não na Ucrânia

Colunista do UOL

23/05/2023 09h27

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No encontro do G7, em Hiroshima, Lula se deu conta de que a única pessoa interessada na sua proposta de paz entre ucranianos e russos é ele mesmo. Nesse tema, os líderes das grandes potências mundiais desligaram Lula da tomada. Zelensky o esnobou. De volta a Brasília, Lula perceberá outra obviedade: o cessar-fogo prioritário para o seu governo está na Amazônia, não na Ucrânia.

Num prenúncio do que está por vir, o embate entre as pastas do Meio Ambiente e das Minas e Energia em torno da exploração de petróleo na região da Foz do Amazonas ganhou ares de guerra santa. Um dia depois de Lula ter admitido no Japão rever o veto do Ibama às perfurações de pesquisa da Petrobras, a evangélica Marina Silva foi a um evento da CNBB. Nele, tratou meio ambiente como "presente do criador". Sem mencionar Lula, disse: "Se a gente pega o presente e destrói, nossa, que ingratidão!"

O Planalto encomendou ao ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, um texto para rebater o documento no qual o Ibama negou à Petrobras licença para enfiar suas sondas em águas equatoriais, a 530 km da foz do Amazonas. Se arbitrar o conflito em favor da perfuração, atropelando uma hipotética autonomia do Ibama, Lula empurrará Marina, espécie de talismã ambiental do governo, na direção da porta de saída.

Ironicamente, há no miolo da encrenca digitais de Bolsonaro. No governo do capitão, a Petrobras enviou seus equipamentos para a Foz do Amazonas sem consultar o Ibama. Agora, a estatal alega que terá prejuízos se tiver que desmobilizar suas sondas sem realizar os testes que programara.

Seria no mínimo inusitado se Lula rasurasse sua agenda verde para preservar parte do legado de Bolsonaro. A eventual conversão prematura de Marina em ex-ministra daria ao governo uma opositora de mostruário, com visibilidade planetária. A boa notícia é que o armistício na Amazônia não depende de Zelensky nem de Putin.