Josias de Souza

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Maduro revive guerra fria Russia X EUA em plena selva amazônica

Um dia depois da realização de exercícios conjuntos de militares dos Estados Unidos com a Força Aérea da Guiana, Nicolás Maduro atraiu a Rússia para o epicentro da crise que fabricou na tríplice fronteira com o Brasil. O Kremlin confirmou que o ditador venezuelano será recebido pelo autocrata russo Vladimir Putin. A data não foi especificada. Mas o Itamaraty receia que o encontro seja iminente.

A internacionalização do conflito entre Venezuela e Guiana ecoa a Guerra Fria, anestesiada desde o início dos anos 90 do século passado. Maduro conseguiu ressuscitar, em plena selva amazônica, o embate político-ideológico travado entre Estados Unidos e a ex-União Soviética.

A Casa Branca defende seus interesses econômicos, pois a riqueza petrolífera da região de Essequibo, que Maduro ambiciona tomar da Guiana, é explorado pela norte-americana Exxon. O Kremlin é o maior provedor de armas da Venezuela. Fornece desde o armamento usado por tropas de infantaria a caças supersônicos.

O governo brasileiro assiste à escalada com preocupação. No final da tarde dessa sexta-feira, Lula recebeu no Alvorada o ministro José Múcio (Defesa). Na entrada, Múcio trocou um dedo de prosa com os repórteres. "Estamos atentos para que não sejamos instrumento de um incidente diplomático que envolve dois vizinhos", disse.

Múcio ainda não percebeu. Mas a conjuntura evolui com tal rapidez que sua manifestação soou natimorta. O incidente ainda permanece na seara diplomática. Mas se a movimentação de americanos e russos serve para alguma coisa é para demonstrar que o conflito já não envolve apenas dois vizinhos.

O próprio Brasil não dispõe da prerrogativa de se excluir da encrenca. O presidente americano Joe Biden instou Lula a exercer sua liderança regional para intermediar uma saída pacífica para o conflito entre Venezuela e Guiana.

Durante a cúpula de chefes de Estado do Mercosul, na quinta-feira, Lula ofereceu as instalações de Brasília para sediar eventuais encontros entre as partes. Mas propôs que o hipotético entendimento seja conduzido pela Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, a Celac.

O diabo é que o mundo enxerga Lula como mediador natural do conflito, o único capaz de sedar os arroubos de Maduro. A responsabilidade de Lula cresceu em maio, quando recebeu no Planalto o ditador venezuelano, tratado pelos vizinhos como um pária. Hoje, alheio à fidalguia do companheiro brasileiro, Maduro faz ouvidos moucos para a inquietação do Planalto.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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