Josias de Souza

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Gleisi apela para o impeachment: 'Esse Congresso engole a gente'

Com companheiras como Gleisi Hoffman, Fernando Haddad não precisa de inimigos. Decidida a torpedear a meta do ministro da Fazenda de zerar o déficit em 2024, batizada pelo petismo de "austericídio fiscal", a presidente do PT levou a carta do impeachment ao baralho.

Gleisi sacudiu o lençol do fantasma da deposição de Lula ao discursar para a plateia da Conferência Eleitoral do PT, encerrada neste sábado. Disse ela: "Precisamos ter recursos, precisamos ter a parte do crescimento econômico como uma meta e um mantra nosso. Gente, se cair a popularidade do presidente Lula, vocês não têm dúvida sobre o que o Congresso Nacional pode fazer. Fizeram com Dilma. Se acontecer qualquer problema, esse Congresso engole a gente".

O alerta de Gleisi foi construído à moda do Chacrinha. Assim como o Velho Guerreiro, a presidente petista não foi ao palco para explicar, mas para confundir. Seu raciocínio está escorado num sofisma, uma ferramenta linguística que cria a ilusão de uma verdade partindo de premissa hipoteticamente lógica para sustentar teses inconsistentes, erradas e delirantemente enganosas.

Pela Constituição, cabe à Câmara dos Deputados abrir processos de impeachment. Hoje, a Casa está submetida aos desígnios das falanges do centrão. Esse aglomerado partidário é comandado pelo imperador Arthur Lira, discípulo de Eduardo Cunha, que articulou a deposição de Dilma. Os resquícios de lógica param por aí.

O espantalho de Gleisi é inconsistente porque Geraldo Alckmin não é Michel Temer. O principal traço da biografia política do atual vice-presidente é a lealdade. A assombração flerta com o erro porque Lula não é Dilma. O tirocínio do criador é inversamente proporcional à inépcia da criatura. O delírio é enganoso porque a abertura irrefletida dos cofres públicos não se confunde com prosperidade econômica. Sob Dilma, deu em ruína.

Convocada a pretexto de organizar o PT para as eleições municipais de 2024, a conferência ocorreu às vésperas de uma semana decisiva para Haddad no Congresso. O ministro da Fazenda rala para aprovar projetos remanescentes da agenda que estruturou para tentar extrair do Legislativo reformas que permitam cobrar impostos de quem brinca de esconde-esconde com a Receita Federal.

O encontro petista foi ornamentado com um debate de Gleisi com o próprio Haddad. A certa altura, o ministro foi ao ponto: "Talvez poucos possam imaginar a luta que é aprovar essas medidas. Semana que vem será decisiva para 2024. O governo vai ter que aprovar meia dúzia de leis, maduras para serem aprovadas, que precisam passar para garantir um Orçamento mais consistente e possam dar fundo de financiamento para aquilo que precisa ser pago -direitos dos trabalhadores, saúde, educação".

Ao contrapor a tese do impeachment ao esforço fiscal de Haddad, Gleisi usou um canhão para matar um mosquito. A bala, por falaciosa, não surtirá o efeito desejado. Mas a chefe do partido de Lula forneceu munição para Lira e suas falanges. Se Gleisi conseguiu alguma coisa foi inflacionar o mercado persa em que Haddad trafega para obter a aprovação das propostas que considera estratégicas.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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