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Josmar Jozino

NOTÍCIA

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Há 20 anos, megarrebelião apresentava o PCC ao Brasil

Presos alertam sobre a presença de crianças entre os reféns na rebelião no Carandiru - 18.02.2001 - Eduardo Knapp/Folhapress
Presos alertam sobre a presença de crianças entre os reféns na rebelião no Carandiru Imagem: 18.02.2001 - Eduardo Knapp/Folhapress
Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

13/02/2021 04h00

A primeira megarrebelião protagonizada pelo PCC (Primeiro Comando da Capital) nos presídios paulistas está completando duas décadas e fez aumentar em 160 anos a condenação de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como líder máximo da facção criminosa.

Essa sentença sozinha equivale a praticamente a metade de todas as penas impostas a Marcola. Ele já foi condenado a um total de 330 anos de prisão em regime fechado. O atual "endereço" dele é a Penitenciária Federal de Brasília, para onde foi transferido em março de 2019 a mando do governo de São Paulo.

Há 20 anos, o PCC mostrava pela primeira vez sua face ao Brasil. A facção comandava o maior movimento de presos até então registrado no mundo. A megarrebelião de fevereiro de 2001 atingiu 29 unidades prisionais (25 presídios e quatro cadeias públicas), deixando o saldo de 14 detentos mortos e 19 agentes penitenciários feridos.

Segundo o Ministério Público, as ações violentas nas prisões começaram na tarde de 13 de fevereiro de 2001, cinco dias antes da megarrebelião. Nove presos não tiveram sorte naquela terça-feira e foram mortos por integrantes do PCC na Casa de Detenção, no Carandiru, zona norte de São Paulo.

rebelião 2001 - 19.02.2001 - Luiz Carlos Murauskas/Folhapress - 19.02.2001 - Luiz Carlos Murauskas/Folhapress
Parentes de presos que estavam dentro da Casa de Detenção saíram e ficaram em frente pedindo para o Choque se retirar
Imagem: 19.02.2001 - Luiz Carlos Murauskas/Folhapress

Marcola não estava na Casa de Detenção naquele dia. Ele encontrava-se recolhido na Penitenciária do Estado, no mesmo complexo prisional do Carandiru. Mesmo assim, ele e outros homens da alta cúpula do PCC foram acusados como mandantes dos assassinatos dos nove rivais.

No dia seguinte aos homicídios, os integrantes da cúpula do PCC envolvidos na matança foram transferidos para outras prisões. As remoções se tornaram o estopim para a deflagração da megarrebelião.

O líder máximo do PCC fez rodízio em diversos presídios. Em 16 de fevereiro de 2001, Marcola foi mandado para Ijuí, no Rio Grande do Sul. Em 5 de março, o levaram para a Papuda, em Brasília.

No dia 8 de fevereiro de 2002, ele foi removido para Aparecida de Goiânia, em Goiás, onde permaneceu apenas uma semana. No dia 15 de fevereiro, voltou para a Papuda e, em 17 de abril de 2002, retornou para o estado de São Paulo, sendo levado para a Penitenciária de Araraquara.

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Preso protesta durante rebelião na Casa de Detenção, no Carandiru, em São Paulo
Imagem: 19.02.2001 - Caio Guatelli/Folhapress

O julgamento de Marcola pelas mortes na Casa de Detenção se arrastou por 12 anos. Ele foi levado a júri popular no início de março de 2013. Os jurados o consideraram culpado. A defesa de Marcola recorreu, mas a Justiça manteve a decisão.

Antes da megarrebelião de fevereiro 2001, as autoridades das forças de segurança de São Paulo não admitiam a existência do PCC. Um secretário de estado chegou a dizer que a facção era ficção. Depois do motim em série, criou-se até uma força-tarefa para investigar a organização criminosa.

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Vista aérea dos presos, da Casa de Detenção do Carandiru, vigiados por policiais militares do Batalhão de Choque após término da rebelião
Imagem: 19.02.2001 - Patrícia Santos/Folhapress

Seis anos depois, o PCC lançava nova ofensiva também violenta e a ação ousada era mais uma vez destaque em manchetes dos principais jornais do Brasil e do mundo. Foi em maio de 2006. A facção criminosa paralisou São Paulo.

A semana sangrenta foi chamada de "Crimes de Maio". Inconformado com o isolamento de 765 integrantes da facção na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, às vésperas do Dia das Mães, data sagrada para a população carcerária, o PCC comandou a segunda e maior megarrebelião da história.

Dessa vez os detentos se rebelaram em 74 dos 105 presídios de regime fechado. Ao mesmo tempo, os criminosos da organização em liberdade decretaram toque de recolher em diversos bairros. Escolas e comércio foram fechados e ônibus incendiados.

O PCC também atacou bases militares, fóruns, delegacias e outros postos policiais. Foram assassinados 47 agentes públicos, entre policiais civis e militares, agentes penitenciários e guardas civis metropolitanos.

Na mesma semana morreram 493 pessoas vítimas de homicídios dolosos no estado. A Ouvidoria das Polícias contabilizou 23 ocorrências supostamente atribuídas a grupos de extermínio. Em 11 casos, os suspeitos pelas mortes foram apontados como policiais civis ou militares.