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Josmar Jozino

REPORTAGEM

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PCC: Marcola nega ter mandado matar autoridades e diz que prova foi forjada

Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

15/04/2021 11h20

O preso Marco Willians Herbas Camacho, 53, o Marcola, apontado como líder máximo do PCC (Primeiro Comando da Capital), foi ouvido por videoconferência judicial no processo que apura ameaças de mortes ao promotor de Justiça Lincoln Gakiya e ao coordenador de presídios da região oeste de São Paulo, Roberto Medina.

Marcola é acusado de ter dado a ordem para matar as duas autoridades. Segundo o Ministério Público Estadual, o plano foi descoberto em 8 de dezembro de 2018, em um dia de visita na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau.

Na saída do presídio, as visitantes Maria Elaine de Oliveira, 47, e Alessandra Cristina Vieira, 41 foram presas por policiais da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), tropa de elite da Polícia Militar.

Maria Elaine tinha ido visitar o marido Júlio César Figueira, 46, e Alessandra o companheiro Mauro. Este último cumpria pena na mesma cela de Marcola. Segundo os policiais militares, na bolsa de Maria Eliane foram encontradas as cartas criptografadas com as ameaças de morte.

No depoimento, em uma sala na Penitenciária Federal de Brasília, sentado ao lado de sua defensora, Marcola pediu autorização para tirar a máscara de proteção contra a covid-19 e disse que as cartas apreendidas com as duas mulheres foram forjadas e "plantadas" pelos policiais.

"No meu ponto de vista houve má fé dos policiais em plantar as cartas", afirmou o preso. Segundo Marcola, as mulheres são inocentes e tudo foi forjado para justificar a transferência dele da Penitenciária 2 de Presidente Venceslau para presídio federal.

O UOL teve acesso ao vídeo com o depoimento de Marcola. Ele falou por aproximadamente 50 minutos. Disse que não deu ordens para matar ninguém e que seria muita burrice da parte dele usar um preso da própria cela dele para escrever carta com ameaças às autoridades.

"São seis pavilhões [Penitenciária 2 de Presidente Venceslau] e 600 ou 700 presos. Qual o sentido de pôr o preso da minha cela para escrever esses bilhetes? Se eu fosse o chefão que dizem que sou, usaria outro preso e não o Mauro, da minha cela. Ele tem problema psiquiátrico, toma oito remédios controlados e eu cuidava dele como um filho", argumentou.

Marcola afirmou que é muito sofrimento ficar recolhido em presídio federal. Ele disse que está com problema de saúde e que a rotina na penitenciária de Brasília é ficar isolado e trancado 24 horas e que sai da cela a cada dois dias para quatro horas de banho de sol.

A Promotoria de Justiça não quis fazer perguntas para Marcola. O prisioneiro respondeu apenas às questões formuladas pelos advogados dos réus.

A videoconferência durou pouco mais de quatro horas. Também foram ouvidos Roberto Medina, diretores da P-2 de Venceslau, o delegado Éverson Aparecido Contelli, responsável pelo inquérito que investigou o caso, os PMs responsáveis pela prisão das duas mulheres, além do preso Mauro e da mulher dele.

Mauro foi ouvido na videoconferência da Penitenciária de Avaré, onde cumpre pena com Júlio César. Alessandra responde ao processo em liberdade. Ela disse que foi abordada junto com Maria Eliane quando ambas estavam no carro, minutos após a saída do presídio.

Alessandra afirmou que ambas entraram e saíram do presídio sem portar nenhuma carta ou bilhete com ameaça. Ela acrescentou que quando Maria Elaine já havia descido do carro, um PM apareceu com um saquinho branco na mão e perguntou para a amiga dela o que era aquilo.

A depoente deu a entender que os bilhetes foram plantados. Dois policiais da Rota que prenderam as duas mulheres também foram ouvidos e reafirmaram ao juiz Deyvison Herberth dos Reis, da 3ª Vara Criminal de Presidente Venceslau, que os bilhetes estavam na bolsa de Maria Elaine e também nas vestes dela.