PUBLICIDADE
Topo

Josmar Jozino

PCC escolheu dia do referendo das armas para matar ex-diretor do Carandiru

José Ismael Pedrosa presta depoimento à CPI dos Presídios em São Paulo, em 23 de agosto de 2001 - Flavio Grieger/Folha Imagem
José Ismael Pedrosa presta depoimento à CPI dos Presídios em São Paulo, em 23 de agosto de 2001 Imagem: Flavio Grieger/Folha Imagem
Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

28/10/2021 04h00

Aconteceu em 23 de outubro de 2005. Era um domingo, dia da votação do referendo nacional sobre a comercialização de armas e munição no Brasil. Foi essa a data escolhida propositalmente pelo PCC (Primeiro Comando da Capital) para assassinar aquele que era considerado o inimigo número 1 da facção criminosa.

José Ismael Pedrosa, 70, era a favor da venda de armas e votou desta maneira no referendo. Depois, foi para um churrasco com amigos e familiares. Na volta para casa em Taubaté, interior de São Paulo, sofreu a emboscada. Morreu com dez tiros ao volante de seu Honda Civic. Três assassinos foram presos, julgados e condenados.

Na época, Pedrosa era o maior rival declarado da facção por dois motivos. Foi diretor da Casa de Detenção, no Carandiru, quando 111 presos foram mortos por policiais militares em 2 de outubro de 1992. E dirigiu a Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, berço do PCC e palco de torturas, espancamentos e maus-tratos.

Segundo a Polícia Civil, o PCC costuma escolher uma data para eliminar uma autoridade pública. Assim agiu com o juiz-corregedor da Vara das Execuções Criminais de Presidente Prudente, Antônio José Machado Dias, o Machadinho, como era chamado por amigos mais próximos.

O assassinato a tiros ocorreu em 14 de março de 2003 na saída do fórum. O corpo do juiz foi enterrado no dia seguinte. O PCC havia anunciado que faria uma festa no dia 15.3.3. A data coincide com os números da sigla da facção no alfabeto. O 15 representa a letra P e o 3, a letra C. Essa foi a comemoração.

No caso de Pedrosa, há quem diga que a intenção dos integrantes do PCC era matá-lo justamente no dia 2 de outubro. E isso para o crime ficar na memória e ser lembrado na mesma data do massacre dos 111 prisioneiros da Casa de Detenção.

O ex-diretor do Carandiru foi assassinado exatamente três semanas depois. Também há quem diga que o PCC escolheu a data do referendo nacional como forma de debochar das autoridades. Naquele dia, assim como Pedrosa, 64% dos brasileiros decidiram que a venda de armas no Brasil não deveria ser proibida.

enterro - Lucas Lacaz Ruiz/Folhapress - Lucas Lacaz Ruiz/Folhapress
24.10.2005 - Enterro de José Ismael Pedrosa, de 70 anos, ex-diretor da extinta Casa de Detenção de Taubaté
Imagem: Lucas Lacaz Ruiz/Folhapress

Temor constante

O medo de ser assassinado pelo PCC era um pesadelo para Pedrosa. A facção criminosa já havia mandado um recado para ele quatro anos antes de matá-lo. A filha dele, a ginecologista Eulália Rodrigues de Almeida, foi sequestrada em seu consultório, em Taubaté, em abril de 2001.

A médica ficou 42 horas em cativeiro e sofreu ameaças de morte. Os sequestradores exigiram a saída de Pedrosa do cargo de diretor-geral da Casa de Custódia de Taubaté e também a libertação de líderes do PCC presos naquela unidade. A polícia resgatou a médica e frustrou a ação dos criminosos.

Bem antes do sequestro de Eulália, Pedrosa já tinha ouvido uma afronta. Idemir Carlos Ambrósio, o Sombra, um dos idealizadores da criação da maior facção criminosa do país, disse em tom ameaçador ao diretor da Casa de Custódia: "O PCC foi fundado por nove pessoas. Oito presos e o senhor".

A libertação da ginecologista e a prisão dos sequestradores não impediram o PCC de dar continuidade ao plano hediondo. A facção esperou Pedrosa se aposentar. Sabia que ele não gostava de escolta. Conhecia a rotina e os hábitos dele, como frequentar o Rotary Club Jacques Félix, em Taubaté.

Por volta das 17h de 23 de outubro de 2005, os assassinos Marcos Silva, 48, o Marcos Babão, Elias Santos Nascimento, 44, o Carioca, e João Paulo Oliveira de Carvalho, 41, já tocaiavam Pedrosa na rua XV de Novembro, no centro de Taubaté, perto do consultório da filha dele.

ismael pedrosa - Claudio Capucho/Folhapress - Claudio Capucho/Folhapress
Ismael Pedrosa em fotografia registrada na Casa de Custódia de Taubaté, em 18 de abril de 2001
Imagem: Claudio Capucho/Folhapress

A vítima foi alvejada no rosto, cabeça, costas e abdômen. A morte foi instantânea. Eulália soube na hora do atentado e ficou em choque. Ela ligou para o irmão, o comerciante Luiz Sérgio Pedrosa, e pediu para que ele fosse urgentemente até o consultório dela.

Luiz Sérgio não conseguiu chegar de carro no local. O assassinato agitou a cidade no dia do referendo. O comerciante teve de estacionar o veículo nas imediações e seguiu a pé. Quando chegou na rua XV de Novembro, viu o Honda Civic, o pai ensanguentado, já sem vida, e se desesperou.

Marcos Babão foi condenado a 19 anos e dois meses de prisão. Carioca recebeu uma pena de 16 anos e nove meses. A condenação de João Paulo foi de 14 anos e um mês. Ele está solto desde 5 de julho de 2018 e é o único dos três assassinos em liberdade.

O Estado não cuidou da segurança de José Ismael Pedroso como deveria. Mas decidiu homenageá-lo depois de morto. Colocou o nome dele no CRP (Centro de Readaptação Penitenciária) de Presidente Bernardes (SP), criado para abrigar líderes de facções criminosas, especialmente do PCC.

Meses antes de se aposentar, Pedrosa havia comentado com colegas da Casa de Custódia de Taubaté: "O trabalho é uma necessidade natural de qualquer ser humano. Trabalho desde os nove anos e pretendo continuar até quando Deus quiser."

Sem a proteção de escoltas e sem carro blindado, ele se aposentou em 2003. Foi cruelmente assassinado dois anos depois.

As disputas por poder e dinheiro dentro da principal organização criminosa do Brasil são narradas na segunda temporada do documentário do "PCC - Primeiro Cartel da Capital", produzido por MOV, a produtora de documentários do UOL, e o núcleo investigativo do UOL.