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Josmar Jozino

Mensagens em celular de chefe do PCC detalham o início da guerra na facção

22.fev.2018 - Corpo de Wagner Ferreira da Silva, no chão, ao lado de carro onde foi assassinado - Reprodução
22.fev.2018 - Corpo de Wagner Ferreira da Silva, no chão, ao lado de carro onde foi assassinado Imagem: Reprodução
Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

08/04/2022 14h34

Análises dos arquivos extraídos de um telefone celular apreendido ao lado do cadáver do narcotraficante Wagner Ferreira da Silva, 32, o Cabelo Duro, mostram o início de uma das guerras internas mais sangrentas envolvendo o PCC (Primeiro Comando da Capital).

Cabelo Duro, um dos chefes do PCC na Baixada Santista, foi morto em 22 de fevereiro de 2018, no Tatuapé, zona leste de São Paulo. Uma semana antes ele havia participado, no Ceará, dos assassinatos de Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e Fabiano Alves de Souza, o Paca, ambos da alta cúpula da facção criminosa.

A reportagem teve acesso ao conteúdo extraído de um dos telefones celulares apreendidos com Cabelo Duro. Ele troca mensagens com integrantes do PCC e demonstra medo de sofrer represália por parte da facção criminosa por causa das mortes de Gegê e de Paca.

O que dizem as mensagens

mensagens encontradas no celular do traficante Wagner Ferreira da Silva, o Cabelo Duro - Reprodução - Reprodução
Mensagens encontradas em celular apreendido ao lado do cadáver do narcotraficante Wagner Ferreira da Silva, o Cabelo Duro
Imagem: Reprodução

Em uma das mensagens enviadas às 20h55 do dia 19 de fevereiro de 2018, um homem que se identifica como "Revolta" explica para Cabelo Duro que a facção "quer uma explicação referente ao acontecido". Esse diálogo foi mantido três dias após o encontro dos corpos de Gegê e de Paca no Ceará.

Às 21h 06m 54s de 19 de fevereiro de 2018, Cabelo Duro envia a seguinte resposta ao interlocutor "Revolta": "Sim porque foi uma atitude sem eles terem ciência. Espero que isso acabe bem, porque se não acabar bem vai virar uma guerra".

No entendimento do serviço de inteligência da Polícia Civil ao analisar essa mensagem, os aliados de Cabelo Duro estavam apavorados e com medo de possível vingança por parte do PCC.

No mesmo dia, às 21h 10m 59s, Cabelo Duro continua o diálogo com "Revolta" e afirma que "o Véio tem que mandar umas ideias lá pro M, aí acaba logo com isso. Se fosse outra pessoa os caras mandavam decretar ele na hora. Agora já foi, não tem mais volta".
"Revolta" responde: "Sim, o Véio manda sim. Eles sabem que você é correto em tudo e vive o crime". Para a Polícia Civil, "Véio" pode ser Gilberto Aparecido dos Santos, O Fuminho, acusado de planejar as mortes de Gegê e Paca, e M deve ser Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como líder máximo do PCC.

No dia 22 de fevereiro de 2018, às 14h 25m 32s, algumas horas antes de ser assassinado, Cabelo Duro troca mensagens com um homem apelidado de "BH": "Clima tenso. Vamos ver onde vai dar tudo isso. Vários ficam em cima do muro. Vários esperam qual lado vai ganhar para poder falar".

Mensagens encontradas em celular apreendido ao lado do cadáver do narcotraficante Wagner Ferreira da Silva, o Cabelo Duro - Reprodução - Reprodução
Mensagens encontradas em celular apreendido ao lado do cadáver do narcotraficante Wagner Ferreira da Silva, o Cabelo Duro
Imagem: Reprodução

O interlocutor "BH" envia a resposta dois minutos depois: "Então lá dentro [Penitenciária 2 de Presidente Venceslau onde estava presa a liderança do PCC] cada um pensa de um jeito. Mas o que eles [Gegê e Paca] estavam fazendo aqui fora não estava certo. Agora vamos ver onde vai dar..."

Segundo investigações da Polícia Civil do Ceará, Gegê e Paca foram assassinados porque estavam desviando dinheiro do PCC. De acordo com o Ministério Público Estadual, "BH" é o apelido de Emivaldo Silva Santos, que já cumpriu pena na P-2 de Presidente Venceslau.

Ambos continuam conversando via WhatsApp. "BH" prossegue: "É 20 contra 5 mil. Mas não temos medo da luta. Eu acho que vem um resultado positivo, até porque não tem bobo na parada". Cabelo Duro diz: "Espero que seja revolvido de uma forma justa para não ter guerra. Só resta aguardar".

Investigadores da Polícia Civil entenderam que nos diálogos fica claro que líderes do PCC decretaram a caçada aos assassinos de Gegê e Paca e que após as mortes dos dois começou uma guerra interna na facção, deixando Cabelo Duro e os aliados mais encurralados e com medo de retaliação.

Ainda no dia 22 de fevereiro de 2018, às 15h 44m 42s, "BH" afirma que o Véio [provavelmente Fuminho], não é irmão do PCC, mas tem uma carta na manga. Cabelo Duro diz que Véio tem mais peso do que irmão [integrante batizado] no PCC.
Na mesma mensagem Cabelo Duro informa que vai procurar um apartamento para se esconder e pede a "BH" para que não comente com ninguém, inclusive com a mulher dele, e também pede ao parceiro para que não use telefone.

O diálogo aconteceu às 16h 06m 23s; "Não usa telefone nem deixa ninguém saber. Nem sua mulher onde a gente vai alugar (sic). Esse apartamento é só para a gente dormir com segurança", ressalta Cabelo Duro.

Horas após esse diálogo com "BH", Cabelo Duro recebe uma mensagem curta de um homem de apelido "Guga". O interlocutor diz: "Vai lá pro flat".

Cabelo Duro responde: "Estou indo, para lá lá na frente. Estou aqui também". Pouco tempo depois, ele foi assassinado por dois homens com tiros de fuzis. O crime aconteceu na rua Eleonora Cintra, 960, perto de um flat onde a vítima costumava ficar hospedada.

Segundo a Polícia Civil, Cabelo Duro foi atraído para o local por um homem até agora não identificado. As investigações indicam que o desconhecido saiu da cena do crime sem ser incomodado pelos assassinos da vítima. Depois da morte de Cabelo Duro, vários integrantes do PCC foram assassinados no Tatuapé.