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Juliana Dal Piva

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Flávio Bolsonaro obteve desconto de R$ 180 mil na compra de mansão

Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui mestrado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas. Trabalhou nos jornais O Dia, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista Época. Obteve oito premiações de jornalismo. Entre elas, o Prêmio Líbero Badaró de jornalismo impresso em 2014 e também foi menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Em 2019, recebeu ainda o Prêmio Relatoría para la Libertad de Expresión (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, pelo trabalho "Em 28 anos, clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares".

Colunista do UOL

02/03/2021 18h26

Ao comprar uma mansão na região do Lago Sul de Brasília, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) obteve um desconto de R$ 180 mil em relação ao valor de avaliação do imóvel, que era de R$ 6,15 milhões. As informações constam da escritura da mansão, feita no 4º ofício de notas de Brazlândia, obtida pela coluna.

Além disso, no documento, o senador e sua mulher, a dentista Fernanda Bolsonaro, declararam ter pagado com "recursos próprios" 2,87 milhões do total de R$ 5,97 milhões — o que equivalente a 48% do valor total. No entanto, o documento não descreve o modo como ocorreu esse pagamento. Foi informado apenas que "os vendedores declararam já haver recebido dos compradores e devedores o valor relativo à parcela de recursos próprios". Ainda foi informado que o casal não utilizou recursos do FGTS. Todo o restante foi financiado junto ao banco BRB (Banco de Brasília).

O empresário Juscelino Sarkis, da RVA Construções e Incorporações —o imóvel estava em nome da empresa—disse à Folha que Flávio fez duas TEDs (transferências bancárias eletrônicas). "Foi uma transação normal, feita através de imobiliária", disse Sarkis. "Eu não tive contato com o senador. Eu não o conheço."

A coluna procurou o senador Flávio Bolsonaro para saber se a parcela de recursos próprios paga por ele e sua mulher foi quitada por meio de TED, cheque administrativo ou pagamento em espécie, mas ainda não obteve retorno.

O 4º ofício de notas de Brazlândia informou que o senador não escolheu o cartório para o registro e a escritura foi lavrada no local por uma distribuição eletrônica do "correspondente bancário".

Nesta terça-feira (2), o filho mais velho do presidente Jair Bolsonaro afirmou que vendeu um imóvel no Rio de Janeiro para arcar com parte dos quase R$ 6 milhões necessários para a compra de uma mansão no Lago Sul em Brasília. No entanto, como a coluna mostrou mais cedo, os dois imóveis do senador na capital fluminense seguem em seu nome e de sua mulher, a dentista Fernanda Bolsonaro.

Na nota divulgada para a imprensa, o senador afirmou que "a casa adquirida pelo senador Flávio Bolsonaro em Brasília foi comprada com recursos próprios, em especial oriundos da venda de seu imóvel no Rio de Janeiro". A compra da mansão foi revelada pelo "Antagonista" ontem.

O senador possui dois imóveis no Rio de Janeiro. O principal deles é um apartamento que fica de frente para a praia da Barra da Tijuca, a cerca de 600 metros do condomínio onde o presidente Jair Bolsonaro e o irmão do senador, Carlos, possuem residência. Os documentos atualizados do 9º ofício de registro de imóveis, onde o apartamento está registrado, mostram que ele segue no nome de Flávio e Fernanda Bolsonaro. A última anotação é de setembro de 2014, quando o casal financiou o apartamento.

O imóvel foi comprado por R$ 2,55 milhões e era onde Flávio e a família moravam antes de se mudarem para Brasília. O apartamento foi um dos pontos importantes da investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro no caso das "rachadinhas" da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Os investigadores verificaram que, pelo menos, R$ 295,5 mil usados para quitar os boletos do imóvel vieram a partir de depósitos sem origem identificada.

Os dados foram verificados a partir da quebra de sigilo bancário de Flávio e Fernanda Bolsonaro. No entanto, o STJ (Superior Tribunal de Justiça) anulou a autorização para quebra alegando falta de fundamentação do juiz que permitiu a medida. Ainda cabe recurso dessa decisão, mas o MP também pode apresentar novo pedido de quebra de sigilo para tentar manter essas informações.

Além do apartamento na Barra da Tijuca, o senador possui uma sala comercial no Shopping Via Parque, na Zona Oeste. O 9º ofício de registro de imóveis também não possui qualquer anotação sobre a venda deste segundo imóvel.

Há pouco tempo também o senador se desfez de sua loja de chocolates no Shopping Via Parque, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Mas a coluna apurou que até hoje, porém, não há registro do negócio na Junta Comercial do Rio de Janeiro. A loja também é alvo da investigação da "rachadinha". Os promotores apontam que ela seria usada como parte do esquema de lavagem de dinheiro.

Flávio Bolsonaro sempre negou as acusações e disse que a denúncia feita pelo MP tinha uma narrativa "macabra" e estava repleta de erros.

Colaboração de Gabriela Sá Pessoa, em São Paulo