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Juliana Dal Piva

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Ernesto Araújo ajusta o discurso sobre China; na carreira já defendeu Dilma

O ex-chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, e o presidente Jair Bolsonaro - Ueslei Marcelino/Reuters
O ex-chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, e o presidente Jair Bolsonaro Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters
Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui mestrado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas. Trabalhou nos jornais O Dia, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista Época. Obteve oito premiações de jornalismo. Entre elas, o Prêmio Líbero Badaró de jornalismo impresso em 2014 e também foi menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Em 2019, recebeu ainda o Prêmio Relatoría para la Libertad de Expresión (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, pelo trabalho "Em 28 anos, clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares".

Colunista do UOL

18/05/2021 12h02

Depois de um ano de atritos diplomáticos entre o Brasil e a China, quem viu o ex-chanceler Ernesto Araújo dizer, na CPI da Pandemia, que nunca teve problemas diplomáticos com a potência asiática pode ter pensado que ele apenas se esquivou para tentar evitar alguma responsabilidade na crise de saúde.

Diplomatas que o conhecem, porém, avaliam que ele ajusta seu discurso conforme o público. Eles recordam um episódio.

Quando foi diplomata em Washington, o ex-chanceler era, por exemplo, simpático ao governo da então presidente Dilma Rousseff.

Em 28 de abril de 2011, Araújo participou de um programa nos EUA chamado Global Model of Democracy and Development, que pertence a entidade Akron Council on World Affairs (ACWA). Na entrevista, o ex-chanceler chegou a defender o papel da ex-presidente como guerrilheira durante a ditadura militar.

Na ocasião, o ex-ministro disse: "Especialmente entre os jovens não havia esperança de ver a democracia restabelecida por meios pacíficos. A impressão era de que o governo militar ia ficar para sempre. Então muitas pessoas, a despeito das instituições, decidiram pegar em armas. Ela (Dilma) foi parte disso".

Em seguida, Araújo afirmou que foi justamente a guerrilha que deu fim à ditadura e os militares acabaram em derrocada por suas contradições. "Então não foi a luta direta com armas que derrubou os militares. Mas é claro que essa luta (guerrilha) foi importante como parte de um movimento geral em direção a mais democracia, que era basicamente um movimento pacífico", emendou Araújo.

O ex-chanceler ainda chegou a dizer que "todos que lutavam em paz ou não tão em paz se sentem parte desse processo de redemocratização."

Ao ouvir essas declarações, seria muito difícil imaginar que, anos depois, Araújo se tornaria chanceler do governo de Jair Bolsonaro, adversário da petista e defensor dos militares.

Na CPI, porém, ele é ouvido como testemunha e tem obrigação de falar a verdade ou poderá responder no Judiciário por falso testemunho. O ajuste de discurso pode não ser o suficiente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL