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Juliana Dal Piva

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Defesa nega ameaça à eleição, mas bolsonaristas insuflam voto impresso

Ministro da Defesa, Walter Braga Netto - ADRIANO MACHADO
Ministro da Defesa, Walter Braga Netto Imagem: ADRIANO MACHADO
Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui mestrado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas. Trabalhou nos jornais O Dia, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista Época. Obteve oito premiações de jornalismo. Entre elas, o Prêmio Líbero Badaró de jornalismo impresso em 2014 e também foi menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Em 2019, recebeu ainda o Prêmio Relatoría para la Libertad de Expresión (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, pelo trabalho "Em 28 anos, clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares".

Colunista do UOL

22/07/2021 14h39

O ministro da Defesa, Walter Braga Netto, chamou de "desinformação" a revelação feita pelo jornal O Estado de S. Paulo de que ele teria enviado um "recado" ao presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), por meio de um interlocutor político. A "mensagem" teria sido de que as eleições de 2022 não iriam ocorrer sem voto impresso e "auditável". Apesar da declaração de Braga Netto, na mesma época do "recado", grupos bolsonaristas começaram a se organizar para levar às ruas a tentativa de encampar uma bandeira no tema.

As urnas eletrônicas são auditáveis, diferente do que o presidente e seus auxiliares tentam alardear. O episódio do "recado" teria ocorrido no dia 8 de julho e o ministro estaria junto com os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica no momento.

Após a reportagem revelar o caso, Braga Netto não usou a palavra "mentira" em sua nota oficial que tenta negar o episódio. É provável que, a essa altura, ele já saiba que uma ala de apoiadores bolsonaristas articula desde a semana em que teria ocorrido o "recado" uma manifestação em Brasília no Dia do Soldado, dia 25 de agosto.

Veteranos das Forças Armadas estão sendo chamados por grupos de Whatsapp e redes sociais. O encontro tem como lema "Deus, Pátria e Família", o que lembra e muito as bandeiras da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, a TFP, conhecida por sua atuação em prol da ditadura nos anos 1960.

No entanto, um organizador do protesto do dia do soldado contou à coluna que a ideia é que a manifestação tenha como foco a defesa do voto impresso. A pauta, que corre solta nas redes bolsonaristas, não surgiu de um clamor popular, sequer era mencionada até que o presidente Jair Bolsonaro tocasse no assunto com acusações sem provas.

O foco do presidente Jair Bolsonaro e seus aliados na defesa do voto impresso coincide com o agravamento das crises de seu governo. Há semanas a investigação sobre a compra da vacina Covaxin desgasta Bolsonaro que já vinha sofrendo com as críticas pela caótica gestão da pandemia, em especial, a demora na compra de vacinas.

Mas, essa semana em que o "recado" teria sido enviado por Braga Netto, também é a semana em que Bolsonaro ouviu as gravações de sua ex-cunhada Andrea Siqueira Valle se tornarem públicas no podcast A vida secreta de Jair, que mostrou o envolvimento direto de Bolsonaro com um esquema ilegal de entrega de salários. O presidente não tocou no assunto com apoiadores e nem em suas redes sociais.

No mesmo dia 8, Bolsonaro também disse que as eleições de 2022 estariam ameaçadas sem o voto impresso. "As eleições no ano que vem serão limpas. Ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições". O Brasil jamais teve fraude comprovada nas eleições depois da adoção das urnas eletrônicas. O presidente já foi chamado no Judiciário para apresentar provas que mostrem as fraudes que ele alega. Bolsonaro nunca apresentou.

O presidente e seu núcleo mais próximo parecem querer apostar na antiga reclamação de Bolsonaro sobre voto impresso, sem fundamento, para engrossar essa discussão no Congresso. Ao mesmo tempo, se o voto impresso não vingar, o que é mais provável, o falso discurso de fraude também ganharia corpo para os bolsonaristas. Seja com viés golpista ou como desculpa para uma eventual derrota.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL