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Juliana Dal Piva

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Sobrinho de Bolsonaro falou que ia matar, diz homem que evitou feminicídio

Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui mestrado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas. Trabalhou nos jornais O Dia, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista Época. Obteve oito premiações de jornalismo. Entre elas, o Prêmio Líbero Badaró de jornalismo impresso em 2014 e também foi menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Em 2019, recebeu ainda o Prêmio Relatoría para la Libertad de Expresión (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, pelo trabalho "Em 28 anos, clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares".

Colunista do UOL

01/10/2021 10h14

O empresário Orestes Bolsonaro Campos, 39 anos, responde a dois processos na Justiça de São Paulo por episódios violentos contra mulheres com quem ele se relacionou e um companheiro de uma delas. Sobrinho do presidente Jair Bolsonaro, ele é conhecido como "Orestinho" e se tornou réu em um caso de lesão corporal e em outro por "homicídio qualificado tentado - feminicídio".

A coluna teve acesso aos documentos dos processos. As mulheres relatam intimidação com armas, tiro, agressões, afogamento e vítimas arrastadas pelos cabelos devido a momentos de descontrole de Orestes. O caso foi revelado pelo jornal Brasil de Fato na quinta-feira (30).

Em entrevista exclusiva à coluna, o comerciante Valmir Oliveira, novo namorado da ex-companheira de Orestes, contou sobre o dia da agressão. "Ele falou que ia me matar e que se não me matasse naquele dia ia ser em outra ocasião", relatou Oliveira à coluna. Procurado na quinta-feira (30), o advogado Alexander Neves Lopes, que atua na defesa de Orestes, disse que só iria se posicionar sobre os processos depois da publicação da reportagem.

A separação entre Orestes e a mulher ocorreu em janeiro do ano passado e, antes disso, os dois viveram juntos por 17 anos e tiveram dois filhos. O nome dela será preservado para sua segurança.

Ataque com pedaço de madeira

Segundo os autos, o sobrinho do presidente atacou a ex-mulher e o comerciante Valmir Oliveira no início da manhã de 2 de outubro de 2020 em uma casa na cidade de Cajati, na região do Vale do Ribeira. O novo casal tinha adormecido no sofá da sala após ver um filme na televisão e junto deles estava um dos filhos de Orestes com a ex-companheira. A criança tinha apenas 3 anos, à época.

No boletim de ocorrência do caso, a mulher relatou que, apesar da separação, Orestes ainda tinha uma chave da casa e entrou no imóvel enquanto eles dormiam. Ela contou "que seu namorado ao ver Orestes, tentou levantar-se, mas foi atingido por um golpe na cabeça com um pedaço de madeira que Orestes portava, vindo a ficar desorientado por alguns segundos, e Orestes desferiu mais alguns golpes".

Foto do tiro disparado pelo sobrinho do presidente Jair Bolsonaro - Reprodução processo contra Orestes Bolsonaro Campos - Reprodução processo contra Orestes Bolsonaro Campos
Foto do tiro disparado pelo sobrinho do presidente Jair Bolsonaro
Imagem: Reprodução processo contra Orestes Bolsonaro Campos

Armado com pistola

A mulher contou ainda que tentou ajudar o namorado, mas Orestes "sacou uma arma de fogo" e ela acabou por pegar o "filho de 03 anos que dormia junto ao casal e evadiu-se do local com receio de ser alvejada por disparos de arma de fogo, e seu namorado continuou no local em luta corporal com Orestes".

Durante a luta corporal, Orestes mordeu Oliveira e, em algum momento, atirou contra o namorado de sua ex-mulher, mas não o acertou. A bala pegou no lado externo da parede do quarto onde dormia a outra filha de Orestes com a ex-companheira. A menina tem 9 anos, mas não foi atingida.

Ao sair correndo da casa, a mulher pediu ajuda na rua e obteve carona para ir até a casa de uma amiga. Só depois disso, ela conseguiu registrar o caso na Delegacia de Polícia de Barra do Turvo, cidade da região.

Após o episódio, Orestes também foi ouvido na delegacia e admitiu que os dois estavam separados e que ficou "nervoso" ao entrar na antiga casa sem avisar e ver a ex-mulher com outro homem. "Ficou nervoso porque não concorda que (ex-companheira) levasse o homem para o imóvel onde residiam", disse Orestes, na delegacia, ao afirmar que se sentiu "provocado".

Ele admitiu ainda que possui registro legal de uma pistola Taurus calibre 38 e informou que "somente faz uso quando vai ao estande de tiro". Orestes alegou aos policiais que estava com a arma porque carregava dinheiro de sua loja e que o tiro ocorrido durante a briga foi "acidental".

Afogamento

Durante as investigações, a ex-mulher relatou ainda que já tinha sido agredida várias vezes pelo ex-companheiro ao longo dos 17 anos em que viveram juntos. "Informa que foram diversas agressões, não sabendo quantas, por várias vezes ficou com hematomas no corpo. Que em uma das vezes recebeu um golpe em sua perna e o mesmo disse que iria lhe matar", contou ela, para a polícia.

Em outra ocasião, a mulher disse que Orestes "afundou sua cabeça na água" e no início do relacionamento ele a levou para uma chácara e "a manteve naquele local por alguns dias lhe fazendo ameaças, e com uma espingarda ao lado para lhe intimidar".

Após a conclusão do inquérito, em fevereiro, o MP-SP (Ministério Público de São Paulo) o denunciou por tentativa de homicídio qualificado por motivo fútil, com emprego de meio cruel, mediante recurso que dificultou a defesa do ofendido e contra a mulher por razões da condição de sexo feminino. A juíza Gabriela de Oliveira Thomaze o tornou réu abrindo processo contra ele em junho deste ano.

Devido ao caso, a mulher obteve uma medida protetiva contra Orestes. No entanto, segundo seu namorado, ela continua se sentindo ameaçada por ele. Há um mês, ele foi até a casa dela junto com a mãe para entregar os filhos que passaram o fim de semana com o pai. No dia seguinte, ele a seguiu de carro durante uma ida ao supermercado.

"Ela tem muito receio e, por ela, eu tenho, também pelas crianças. Eles ficam com medo e meus pais também de acontecer alguma coisa. Eu não tenho medo. Fico com receio por ela e pela minha família", contou Valmir Oliveira. Com relação a esse episódio, em agosto de 2021, a defesa de Orestes disse à coluna que esse é um "fato inexistente".

Arrastada pelos cabelos

Ao justificar para os policiais a agressão contra a ex-mulher, Orestes Bolsonaro Campos tentou minimizar a separação e dizer que era um "tempo" no casamento. Mas cerca de duas semanas antes da tentativa de homicídio contra a mãe de seus filhos, ele também agrediu uma outra mulher com quem ele estava em uma festa no dia 17 de setembro de 2020. O nome dela também será preservado.

No boletim de ocorrência, a estudante de 17 anos relatou que já tinha "ficado" com ele algumas vezes e que os dois estavam em uma festa quando tudo aconteceu. Ambos beberam e ela ficou com sono e deitou em uma cama que havia num dos quartos da casa. Um pouco depois, um outro homem que estava na festa também deitou e adormeceu na mesma cama.

Alguns minutos passaram e Orestes ficou furioso ao ver os dois deitados. Na delegacia, a estudante disse que "estavam apenas deitados, quando Orestes entrou no local e ao ver a vítima ali, a segurou pelos cabelos, puxou, a arrastou no chão, bem como desferiu vários tapas no seu rosto. Que conseguiu se desvencilhar dele e correu para a rua". Depois disso, ela deixou o local e registrou o caso.

Cinco meses depois, em fevereiro deste ano, a juíza Bárbara Chinen tornou o sobrinho do presidente réu por lesão corporal após analisar a denúncia do MP-SP sobre o caso. Orestes é filho de Denise Bolsonaro Campos, irmã do presidente Jair Bolsonaro.