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Kennedy Alencar

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Sentença no caso Floyd é vitória inédita nos EUA contra violência policial

Cadeado escrito "Vidas negras importam" é visto em protesto durante o primeiro dia do julgamento do ex-policial Derek Chauvin pela morte de George Floyd - Octavio Jones/Reuters
Cadeado escrito "Vidas negras importam" é visto em protesto durante o primeiro dia do julgamento do ex-policial Derek Chauvin pela morte de George Floyd Imagem: Octavio Jones/Reuters
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

20/04/2021 18h23

Histórica, a decisão no caso George Floyd rompe a tradição de impunidade contra a violência policial nos EUA em relação aos negros e tem efeito global sobre o racismo estrutural de diversos países, como é o caso do Brasil.

O policial Derek Chauvin, que asfixiou George Floyd por mais de 9 minutos, recebeu uma sentença extremamente dura em relação a três acusações, algo inédito por contrariar a tradição de entendimentos brandos adotados em julgamentos anteriores sobre violência policial.

Em resumo, o júri entendeu por unanimidade que Chauvin assumiu o risco de matar Floyd, agindo de forma premeditada nesse sentido ao se ajoelhar no pescoço da vítima por tanto tempo. A duração da pena ainda será definida, mas tende a ser bastante longa e exemplar (provavelmente por volta de 40 anos).

Nos EUA, a vida negra vale menos do que a branca. Se você é negro, tem mais chance de ser vítima de violência policial. Aqui no Brasil é a mesma coisa.

O assassinato cruel de George Floyd em 25 maio do ano passado desencadeou uma onda de manifestações no país que só pode ser comparada à luta pelos direitos civis nos anos 60. Na época, houve repercussão planetária.

No Brasil, em pleno governo Bolsonaro, a violência ganha corpo. No entanto, tem sido cada vez maior a consciência de setores organizados da sociedade civil de que a violência policial afeta mais os negros e pobres do que os brancos e ricos. É preciso combater isso.

O veredito no caso George Floyd traz, na prática, a oportunidade para um ponto de inflexão em relação ao racismo estrutural e à violência policial no mundo inteiro. Nos EUA, já houve mudanças legislativas para combater a truculência das polícias. O governo Joe Biden, por exemplo, deverá ter mais chance de aprovar no Senado lei já votada na Câmara que reforma as polícias americanas e suas práticas violentas de abordagem.

No mundo inteiro, haverá maior pressão para que ocorram políticas públicas semelhantes. O modus operandi das polícias brasileiras se confunde, muitas vezes, com o de esquadrões da morte. No caso do Rio de Janeiro, a brutalidade policial é cotidiana nas comunidades carentes.

Nesse contexto, a decisão de hoje no caso de George Floyd reforçará a necessidade de criar reformas estruturais em sociedades marcadas pela violência e de forte tradição escravocrata, como são a americana e a brasileira.

No momento em que o presidente Jair Bolsonaro tenta armar a população e estreitar laços com as polícias militares estaduais, é salutar ver no cenário internacional uma onda diferente. Hoje é um dia a ser celebrado, pois ele traz esperança de um futuro melhor. Além da pandemia, as manifestações contra o racismo estrutural foram fundamentais para a vitória de Joe Biden sobre Donald Trump na eleição presidencial de novembro passado. Como Trump passou nos EUA, Bolsonaro passará no Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL