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Kennedy Alencar

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Coronel Blanco bate recorde de autocombustão na CPI com versão fajuta

04.ago.2021 - Coronel da reserva Marcelo Blanco da Costa em depoimento à CPI da Covid - Jefferson Rudy/Agência Senado
04.ago.2021 - Coronel da reserva Marcelo Blanco da Costa em depoimento à CPI da Covid Imagem: Jefferson Rudy/Agência Senado
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

04/08/2021 11h38Atualizada em 04/08/2021 13h00

Ex-assessor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde, o coronel da reserva Marcelo Blanco da Costa bateu o recorde de autocombustão ao depor na CPI da Covid. Ao apresentar versão insustentável, Blanco conseguiu se complicar na fala inicial de 15 minutos que a CPI confere a todos os depoentes.

Blanco, que deixou o Ministério da Saúde em 19 de janeiro, contou à CPI que dias depois já estava dedicado a buscar vacinas para vender no "mercado privado". Ele não viu conflito ético em ter acabado de sair do Ministério da Saúde e negociar com o cabo da PM mineira Luiz Paulo Dominguetti, que se apresentava como representante da empresa americana Davati e dizia ser capaz de entregar 400 milhões de doses de vacina.

Os senadores Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI, e Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente da comissão, deram um soco no queixo do coronel ao dizer que Blanco negociava vacina para o "mercado privado" quando não havia previsão legal para esse tipo de atividade.

Nesse momento, ruiu na largada a versão de "empreendedor revelação" apresentada por Blanco no depoimento à CPI. Renan e Randolfe, além de outros senadores, passaram a questionar a solidez do depoimento e apontar problemas éticos e legais.

Na prática, o coronel Blanco confessou, por exemplo, crimes de tráfico de influência e de exploração de prestígio dos "relacionamentos". Em resposta à CPI, Blanco disse que só orientou Dominguetti a apresentar suas propostas à CPI. O presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), disse ver crime de advocacia administrativa.

Questionado por Renan sobre a empresa que abriu, ele disse ser um desejo pessoal e antigo de empreender. "É um assunto que eu gosto, tenho conhecimento acima da média. (...) Esse desejo já existia", afirmou o coronel.

Blanco afirmou que a empresa nunca teve contrato com órgão público ou privado em cinco meses de existência e não faturou nada. Ou seja, o próprio coronel reforça a suspeita de que criou uma empresa sob medida para a transação com Dominguetti e a Davati.

Ainda na fase de inquirição do relator, o depoente se complicou ao negar que atuara como lobista de Dominguetti e da Davati. No entanto, ao longo do depoimento, ele disse que orientou Dominguetti a enviar mensagens para "e-mails institucionais" do Ministério da Saúde e ligou para diretores para ver se a documentação mandada pela Davati seria suficiente. Segundo Blanco, na "cabeça" dele, isso não significava atuar na esfera pública.

Depois, Blanco afirmou que nunca tratou de valores de comissão com Dominguetti em tratativas para "o mercado privado". O coronel com espírito empreendedor conversou com um lobista durante três meses sem tratar do valor que receberia por seu serviço.

Ora, mentiu à CPI. Não há outra conclusão possível.

O coronel Marcelo Blanco é uma revelação do "empreendedorismo militar" que tomou conta do governo Bolsonaro. Se tivessem combatido a pandemia com a presteza com que tentaram vender vacina na picaretagem, militares do Ministério da Saúde teriam salvo o Brasil da tragédia de mais de 550 mil mortes por covid-19.

A César o que é de César. O presidente Jair Bolsonaro fez duas coisas boas para o Brasil. Tirou Sergio Moro da 13ª Vara Federal de Curitiba e expôs ao Brasil o baixo nível de nossos generais e coronéis. Na Saúde, militares montaram esquema para roubar. São golpistas, incompetentes e corruptos. Blanco é só um resumo menor dessa turma.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL