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Leonardo Sakamoto


Freixo: Morto não era suspeito no Caso Marielle, mas próximo dos Bolsonaros

Ex-PM Adriano Magalhães da Nóbrega - Reprodução/Polícia Civil
Ex-PM Adriano Magalhães da Nóbrega Imagem: Reprodução/Polícia Civil
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

09/02/2020 12h56

"Adriano da Nóbrega, chefe do Escritório do Crime, tinha relações comprovadas com a família Bolsonaro, mas não era suspeito da morte de Marielle. Quem diz o contrário está equivocado." A declaração do deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ) foi dada à coluna na manhã deste domingo (9) - após ser divulgado que o ex-capitão do Bope, líder de um dos principais grupos de matadores de aluguel do Rio de Janeiro, foi morto, em Esplanada (BA), por agente de segurança pública. Ele teria reagido à tentativa de prendê-lo.

Adriano permaneceu foragido por mais de um ano. Era procurado por assassinato, mas não o da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

"Não posso afirmar que foi execução ou queima de arquivo por não termos informações detalhadas. Mas ele não era suspeito da morte de Marielle. Não havia nenhum indício, diferentemente do que acontece com Ronnie Lessa", afirma Freixo, que presidiu a CPI das Milícias quando deputado estadual, em 2008. "Não há um sinal na investigação de envolvimento de Adriano." O deputado federal, que tem acompanhado a investigação junto à Polícia Civil e ao Ministério Público do Rio, fazia parte do mesmo grupo político que a vereadora.

Os ex-policiais militares Ronnie Lessa, que era relacionado ao Escritório do Crime, e Élcio Vieira de Queiroz foram presos, em março do ano passado, acusados de terem cometido o crime. As investigações ainda não apontaram quem seriam os mandantes.

"Adriano deveria estar sendo investigado pela relação com a família Bolsonaro. O hoje senador Flávio Bolsonaro deu uma medalha a ele enquanto Adriano esteve preso, Jair Bolsonaro o defendeu quando era deputado federal, familiares de Adriano trabalhavam no gabinete de Flávio, na época em que ele era deputado estadual. Isso sem contar que era amigo de Fabrício Queiroz. O que mais é preciso?", questiona o deputado do PSOL.

No gabinete do então deputado estadual e hoje senador Flávio Bolsonaro, trabalhavam a mãe e a esposa de Adriano da Nóbrega. O miliciano foi homenageado pelo filho 01 do presidente da República com a Medalha Tiradentes da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, em 2003. O próprio Jair Bolsonaro o chamou de "um brilhante oficial", em discurso no Congresso Nacional, após o miliciano ter sido condenado a quase duas décadas de prisão pela morte de um guardador de carros que teria denunciado extorsões de policiais a moradores de uma comunidade. Ele defendeu sua absolvição. Segundo apontou levantamento da Agência Pública, Flávio foi o candidato mais votado em Rio das Pedras, território do Escritório do Crime, em 2018.

De acordo com ele, é fundamental que tanto a investigação pela morte de Marielle não seja interrompida, como também que a morte de Adriano não encerre investigações a respeito das atividades do Escritório do Crime. O grupo contaria com agentes e ex-agentes públicos de segurança, promovendo corrupção, com estreitas relações com atores do poder político, como o clã Bolsonaro. "Adriano é muito central para entender o Rio de Janeiro. Portanto, seria importante que ele tivesse sido preso com vida", afirma.

"Mais procurados"

O Ministério da Justiça e Segurança Pública havia deixado o miliciano Adriano da Nóbrega de fora da lista dos bandidos mais procurados do Brasil, divulgada no dia 31 de janeiro. O ministro Sergio Moro foi alvo de críticas da oposição por causa disso.

Reportagem de Ítalo Nogueira, da Folha de S.Paulo, constatou a ausência. De acordo com o ministério, o ex-capitão do Bope não havia sido incluído porque "as acusações contra ele não possuem caráter interestadual, requisito essencial para figurar no banco de criminosos de caráter nacional". Apesar disso, dois outros milicianos apareciam, no cadastro, tendo apenas o Rio como sua área de atuação.

Moro afirmou, através de sua conta no Twitter, que foram adotados critérios técnicos e realizadas consultas aos Estados para organizar o cadastro. De acordo com Freixo, não existia justificativa pela ausência. "Se há qualquer criminoso do Rio de Janeiro na lista de mais procurados, tem que estar também o Adriano."

"Ou o ministro é muito incompetente e esqueceu alguém que toda a Segurança Pública considera perigoso. Ou é pior, é conivência." Para ele, Moro agiu, nesse caso, a fim de não desagradar a família Bolsonaro.

Leonardo Sakamoto